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O tropeço de Pedro Sánchez

 

Pedro Sánchez, ontem, junto a {Susana} Díaz numa visita a Córdoba.&{lt};{br}/&{gt}; - EUROPA PRESS / ENRIQUE GÓMEZ

JUAN R. Sierra ÁNGELES Vázquez
07/11/2019

Primeiro em todas as sondagens, Pedro Sánchez tinha desenhado uma campanha conservadora, com mensagens muito claras, na qual se apresentava como o único candidato capaz de evitar uma nova repetição eleitoral. Tudo ia razoavelmente bem, sem erros, para além de que seu discurso não estava conseguindo, segundo as sondagens, cumprir as perspectivas socialistas de aumentar os 123 assentos parlamentares de Abril. Mas a situação judicial de Carles Puigdemont (quem ontem anunciou a morte do seu pai), provocou o primeiro tropeção do presidente em funções, que ontem presumiu de que a procuradoria estava as suas ordens.

Uma das partes mais polémicas do debate eleitoral da passado segunda-feira teve lugar quando o líder socialista disse sobre o processo de extradição do expresidente: «Comprometo-me a trazer-lhe de volta a Espanha e que renda contas diante da justiça». A frase casava mal com a separação de poderes, porque o regresso de Puigdemont depende dos juízes, mas Sánchez se reafirmou dois dias mais tarde, com uma fórmula que provocou um pouco um frequentado consenso, unindo em seu contra à direita espanhola, ao independentismo e aos fiscais.

Em RNE, à primeira hora da manhã, o candidato do PSOE foi interrogado sobre este compromisso. «Como o vai fazer?», disseram-lhe. Sánchez respondeu que «o estava fazendo já», através da procuradoria, que pediu a reativação da euroordem contra Puigdemont. «A procuradoria de quem depende?»,perguntou-se o presidente. «Do Governo», respondeu o entrevistador, no sentido de que o procurador-geral é nomeado pela Moncloa. «Pois já está», respondeu Sánchez.

A MATIZAÇÃO / É certo que o Executivo escolhe ao máximo representante do ministério público, mas a partir de aí este obra «com plena objetividade e independentismo», segundo recolhea lei. Embora ao Governo pode «interessar» certas atuações perante os tribunais, a última palavra sempre a tem o ministério público.

Os assessores de Sánchez assinalam que o tropeço apenas terá impacto nas urnas, convencidos como estão de que a contundência face ao independentismo pode dar-lhe votos de indecisos e antigos simpatizantes de Cs. Mas pela primeira vez nesta campanha, o líder socialista pôs-se à defensiva. Sem chegar a uma retificação, horas mais tarde precisou em Twitter suas palavras. Em lugar de «comprometer-se» à extradição de Puigdemont, a quem chamou «prófugo da justiça», esclareceu que ia  «trabalhar» para isso. E em vez de insistir no carácter «dependente» da procuradoria, disse que esta contava com o «apoio» do Executivo.

O expresidente  respondeu-lhe desde a mesma rede social. «Não sou nenhum prófugo. Estou em mãos da justiça belga, que decretou minha liberdade sem fiança», escreveu Puigdemont, obviando que está declarado «em rebeldia», termo judicial para os fugidos, pela justiça espanhola. Mais relevante foi a reação do seu advogado, Gonzalo Boye. «O que realmente quer [Sánchez] é que o chamemos para a defesa», afirmou o letrado, cuja estratégia passa por qualificar a reclamação contra o expresidente como uma causa política, tese que apoiará com as palavras de Sánchez.

Daí, entre outros motivos, o mal-estar nas associações de fiscais. Todas, desde a Associação de Fiscais (conservadora) à União Progressista de Fiscais (à que tem pertencido a ministra de Justiça, Dolores Delgado), criticaram ao presidente, deixando claro que o ministério público em nenhum caso cumpre «ordens» do Governo. Ainda mais inusual foi o comunicado que emitiu a própria procuradoria do Supremo, encarregada de reativar a euroordem contra Puigdemont. O texto, muito breve, sublinha que todas os processos no juízo ao procés «produziram-se no âmbito da autonomia fiscal».

ALEGRIA INDEPENDENTISTA / Ao mesmo tempo, ao Sánchez chegaram-lhe recriminações desde quase todos os partidos, de ERC a Cs, passando pelo PP e JxCat. Quim Torra disse que as palavras do presidente fazem parte do «escândalo permanente no qual vive instalado o Estado». Mas os independentistas celebraram em privado o tropeço, porque ajuda a transmitir que em Espanha, alegadamente, «não há separação de poderes». Pouco depois, noutro motivo de júbilo, o Reino Unido rejeitava por «desproporcionada» a euroordem contra a antiga conselheira Clara Ponsatí, que vive na Escócia. Para a direita, Sánchez «atirou por terra» o trabalho independente de juízes e fiscais.

Por uma vez, fez-se quase realidade a dissertação do PSOE de que todos os partidos, a esquerda e direita, estão em seu contra. Só Podemos e Vox evitaram entrar. Iglesias já carregou contra o presidente durante o debate por sua posição em relação a Puigdemont. E Abascal deu amostras em televisão de seu escasso respeito à separação de poderes: se chega à Moncloa tentará que Torra «seja detido».