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«No futuro, quereremos ser como {Brad} {Pitt} e não como {Terminator}»

 

«No futuro, quereremos ser como {Brad} {Pitt} e não como {Terminator}» - JOSÉ LUIS ROCA

JUAN FERNÁNDEZ
01/07/2019

Juan Luis Arsuaga (Madrid, 1954) é um personagem particularmente incómodo para ser entrevistado. Não porque sua conversa resulte vácua -poucas questões são mais interessantes e transcendentais que as que costumam ocupar seu discurso-, nem porque não dê bons titulares -é uma máquina de soltar frases merecedoras de ser esculpidas em mármore-, mas porque pertence a essa categoria/escalão de mentes preclaras que respondem com mais perguntas que as que se lhe lançam. No fim, depois de/após levar-te de excursão por um jardim de teorias, dissertações e caminhos perdidos por volta de do origem da vida, as espécies e a evolução, te mira e te diz: «¿A ti que te parece?». Como se uma pessoa soubesse o que ele simula ignorar.

Com essa atitude erudita e cética, acaba de reunir num livro tudo o conhecimento que há acumulado acerca de porque é que as coisas são como são, desde a consciencializa humana ao asa duma {libélula}, desde o fervor contagioso de um adepto do Barcelona no Camp Nou ao último avanço em inteligência artificial. Mas que ninguém espere encontrar em Vida, a grande história (Destino) conclusões fechadas. Acostumado a procurar respostas enterradas na terra, o forte do paleontólogo é semear dúvidas entre os vivos.

--¿Contar a história da vida não é uma pretensão arrogante?

--Arrogantes são {l--s} gurus que escrevem livros para arranjarle a vida à pessoas e dizer-lhe o que tem que pensar. {Ah}, não posso com a epidemia dos livros de autoajuda. Eu procuro justo o contrário. Sou socrático, não {respondo}, faço perguntas. Conto o que a ciência tem descoberto, e que logo cada um ache o que queira.

--Meu objetivo é conhecer sua opinião, que se molhe. {Empecemos} por algo simples: ¿a vida faz sentido?

--O sentido é um conceito/ponto que pertence ao campo da {metafísica}, não é minha competência, essa não é uma pergunta para um biólogo. Nem sequer a ética é uma pergunta válida para mim. A ciência conta como são as coisas, não como deveriam ser. ¿É ético ser um parasita? Pois não o sei, você verá, mas na natureza há multidão de parasitas, e cumprem sua função.

--¿Qual é a função da vida?

--O único objetivo da vida é ocupar todos os {nichos} que há num ecossistema e seguir/continuar criando novas possibilidades de vida. À vida só/sozinho lhe interessa expandir-se, diversificar-se, propagar-se, abrir-se caminho. É sua tendência natural, é a única lógica da evolução, não há outra, não existe nenhum para que. Já seja uma bactéria, uma amêijoa, um crisântemo ou um ser humano. Só/sozinho aspiram a ocupá-lo tudo.

--¿Estava chamada a ter as formas de expressão que conhecemos?

--Eu sou pouco/bocado partidário do {determinismo}, acredito/acho que o que vemos a nosso por volta de foi mais fruto do {azar} que da necessidade. Se supõe que a evolução tem ido gerando seres cada vez mais complexos, ¿mas que diabos é a complexidade? ¿Somos mais complexos nós que um gerânio ou um {murciélago}? O gerânio faz a fotosíntese, pouca brincadeira. E o {murciélago} usa um {sónar} para orientar-se na escuridão, que também não está mau. De jovem {leí} um livro que me marcou, O {azar} e a necessidade, de {Jacques} {Monod}, que terminava com uma frase bruta: estamos sós perante um universo indiferente.

--¿A subscreve?

--Totalmente. O pior não é habitar um universo hostil, mas este seja indiferente a nossas preocupações. O outro, isso de que alguém tem escrito/documento um guião para que o universo, o planeta e a vida evoluam até chegar a nós, era demasiado bonito para ser real.

--Já sabe, nos encantam os finais felizes.

--Pois sinto dececionarle, mas na evolução não existe nenhum guião, não há nenhum para que. A vida é cega, vai a {tientas}, é uma contínua tentativa e erro. Mas não se para nunca, está tudo o tempo inventando, vai provando continuamente novas formas de expressão. A vida não procura, mas encontra.

--¿Temos já claro porque é que surgiu quando surgiu?

--O surpreendente da vida é o cedo que surgiu. Só/sozinho pôde fazê-lo faz 4.000 anos. Antes tivesse sido impossível, porque este planeta era um inferno. Não paravam de cair meteoritos, a temperatura era altíssima e não tinha água. Mas esse ambiente hostil foi estabilizando e faz 3.800 milhões de anos deram-se as condições necessárias para que surgisse a vida. E tão rápido como pôde surgir, surgiu. Curioso, ¿verdade?

--¿O sabemos tudo acerca de esse momento?

--Conhecemos os fatores que fizeram que a vida surgisse, mas não fomos capazes de criá-la no laboratório. Logo não será tão fácil. Por isso, quando ouço a alguns dizer que a vida tinha que acontecer sim ou sim, sempre {respondo}: {ah}, pois muito bem, {créala} tu agora, que te vejamos.

--¿Há mais vida no universo?

--Estou convencido de que antes de 10 anos teremos encontrado planetas com condições adequadas para que nelas se dê a vida. Falo de vida simples. Vida complexa já é outro cantar.

--{Hábleme} dos humanos. Se amanhã {desapareciéramos} todos, ¿os símios voltariam a evoluir até dar à luz a novos {homo} {sapiens}?

--Aos {chimpancés} não vejo-os muito pela lavor/trabalho, não cooperam entre eles, e isso foi o que nos fez humanos. Só/sozinho há consciência quando existe um tu e um eu. Uma vaca tem um mundo subjetivo. Sente, padece e tem emoções, mas não distingue entre o tu e o eu. Entre outros motivos, porque para comer erva não necessita-o.

--¿Nessa altura a consciencializa surgiu porque a necessitávamos?

--Sim, a consciencializa é {adaptativa}. Na verdade, na evolução tudo é adaptação. A uma vaca não lhe serve de nada estar consciente de seu eu, mas a um delfim sim, porque vive em sociedade, lhe interessa para sobreviver. Os delfins são tão prontos porque vivem em grupos e competem com outros grupos. Não basta com viver em grupo, temos de competir. O que nos fez humanos foi a política, a necessidade de entender-nos com o outro e poder/conseguir manipularle. A consciencializa surgiu porque era útil.

--¿Que utilidade evolutiva tem o sentimento religioso que temos albergado durante séculos?

--A mente humana necessita explicações, e deus era o esclarecimento ao que não se entendia. Por outro lado, as religiões serviram para criar identidades simbólicas, e esse é o grande avanço da civilização humana: temos conseguido que a identidade simbólica ultrapasse os limites da identidade biológica. Nas {manadas}, os animais estão aparentados por vínculos genéticos, mas nós acreditemos grupos com indivíduos aos que não nos une o sangue, mas ser de um mesmo clube de futebol ou seguir/continuar a um mesmo cantor.

--¿Eu estava programado para conhecer a minha mulher e ter a meu filho? ¿Até que ponto sou escravo de meus genes?

--Até à chegada do {homo} {sapiens}, a única missão de um ser vivo era reproduzir-se e transferir seus genes à seguinte geração. Mas nós temos consciência e podemos decidir não ter filhos, ou ir a guerras e lutar contra irmãos, ou dar a vida por filhos alheios. Isto não estava previsto no design humano e é fruto também da identidade simbólica. Nos temos libertado da escravidão dos genes.

--É crítico com as altas expectativas que alguns têm ocasos na inteligência artificial.

--{Critico} que se queira equiparar aos robôs com os seres vivos. Os animais não podem raciocinar, mas têm sensibilidade e emoções, o qual implica implicações éticas em nossa relação com eles. No entanto, as máquinas não sentem, nem sentirão nunca. Um animal, quando não come, sente fome e se {deprime}. Uma máquina te diz que se lhe acaba a bateria e se apaga, mas não sente nada. Os robôs nunca poderão ter sentimentos, outra coisa é que possam chegar a fingir-los muito bem.

--Face às {distopías} que auguram um mundo dominado por {humanoides} e máquinas, sustenta que no futuro não vamos a mudar tanto/golo. ¿Em que se baseia?

--No desejo humano. A realidade será como queiramos, não vamos a ser meros espectadores do futuro, o vamos a desenhar a nossa imagem e semelhança. E estou convencido de que vamos a preferir ser pessoas antes que máquinas. Não o duvide: no futuro vamos a querer parecer-nos a {Brad} {Pitt}, não a {Terminator}. Levaremos muitas próteses {biónicas}, mas seremos humanos.