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A mulher que restaura o tempo

 

A mulher que restaura o tempo - FRANCIS VILLEGAS

POR GEMA GUERRA
23/11/2019

Patricia

Penis

Salud, dinheiro e amor. E tempo. Alguém deveria ter incluído essa quarta também na lista. As primeiras três vão e vêm, é melhor que não se vão mas sempre têm a oportunidade de voltar, o tempo não. Deveria ser o bem mais prezado. O que se cuide com mais mimo. É o único que não regressa. Uma vez que passa já não há volta atrás. Adeus. Se {esfuma}. Entre que escrevo estas linhas e alguém as está lendo agora mesmo. É o único que quando está a ser deixa de ser. Por isso a partir de agora quando alguém repita aquilo de saúde, dinheiro e amor outro alguém deveria completar-lhe com um «e tempo». Sempre e quando não se o digam a Patricia Penis (Cáceres, 1977). É das poucas pessoas capazes de controlarlo. Poderia passar por relógio, joga a seu antojo, o detém, o move e o repara. Não exerce seu dom com as pessoas porque está comprovado que com as pessoas não se pode –ainda—mas sim funciona com as coisas. É capaz de devolvê-las à vida, a seu lugar e a sua época. Poucos poderão presumir de ressuscitar os objetos, ela sim. É restauradora. Das de bata tingida de pesca e de pinturas.

Seu oficina cheira a pintura. Dentro, madeira e mais madeira, que é o seu. Ao fundo uma ardósia com gatafunhos, móveis espalhados sem ordem/disposição nem concerto, desgastados, alguma cadeira, fasquias {apilados}, ferramentas numa parede e uma estante na outra, com amostras enroladas e livros, centenários talvez. Brilha um atril dourado. «É um {Ferrero}», brinca. É o único que salienta sobre/em relação a a sobriedade {caoba}. Esse cor ouro {impostado} e o laranja do aquecedor aceso, se calhar o mais atual da sala. No centro preside um cofre imenso. É um ‘arca das três chaves’. Uma peça do século XVII que servia de baú de arquivos para os cronistas da época. Cada um guardava uma fechadura diferente para que seu custodia fora mais segura. Acaba de terminá-lo. Em Cáceres há dois e ela se tem encarregado de reviver-los. Estes são os últimos mas leva já uns quantos. Todos os que cabem em vinte anos. «Em Dezembro cumprem-se» .

Foi em 1999 quando deu o passo adiante. Até então –e agora—sempre lhe tem acompanhado sua irmã maior. Sua professora, diz. Ela se o tem ensinado tudo. Da vida também. «Eu era muito má estudante». Lhe {aburría} o {reglado} e sempre teve inquietude pelo artístico. «De pequena {barnizaba} as folhas e pintávamos móveis». Por isso quando tocou decidir, se foi embora a Madrid a aprender o ofício. Nessa altura na Extremadura aquilo não se estudava. Terminou, voltou e abriu um oficina ao que nunca lhe chegou a pôr nome. Tinha 22 anos. Enfatiza que lhe custou começar porque ninguém a tomava a sério. Dos inícios confessa uma de suas primeiras curiosidades. Uma na qual acabou ébria dos vapores que soltavam os químicos. Aos poucos, entre o oficina de sua irmã e os encomendas foi abrindo's vazio. E com os anos já o tem. Tem percurso/percorrido um por um cada retábulo e cada palácio na Extremadura. O arquivo é infinito. São Juan, São Mateo, Santa María, todos passaram por seus andaimes e suas mãos. Conseguiu devolver os cores a pinturas quase irrecuperáveis e a esculturas centenárias. E ela reconciliou com o esplendor às postes de iluminação centenárias de Cánovas. Cada trabalho é meticuloso, único. E algum até encerra seus tesouros ocultos. «Uma vez num retábulo {encontramos} uma cápsula do tempo, era de 1700, tinha um papel e dois {maravedíes}». A documentou e a devolveu a seu sítio. Porque o mais importante neste ofício, assegura, é o «respeito».

Patricia diz que cada objeto tem suas cicatrizes e que isso faz parte da sua história. «Em muitas ocasiões podes deixar algo como novo, mas a restauração não é isso, é ser fiel sempre ao original, se há algo original, temos de conservá-lo». Isso mesmo lhes faz saber a suas alunas porque desde há uns anos, 2003, para conciliar os encomendas, dá aulas. E tem lista de espera. Às terças-feiras e quinta-feira, dezasseis alunas. Também homens. «Isto é melhor que o psicólogo», lhe dizem. Nunca pensou na docência mas está convencida de sua função terapêutica. Vai a começar a classe. «¿Me {restauras} a mim?», lhe perguntam. «Os milagres a {Lourdes}».