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Ángel Cuenda

Los domingos os aplausos se os levam outros, mas a Ángel não lhe importa. Está ali, em seu posto, esperando ordens

 

Ángel Cuenda -

POR FERNANDO VALBUENA
17/03/2019

Ángel é o Viveiro. O Novo. Ou seja, o velho, porque para os que têm olhos na face está mais novo o Velho que o Novo. É igual. Tal qual. Se chama Ángel Cuenda e vai por aí arrastando um saco de carinhos, embora, ao verle com os olhos de não ver, parecesse que o que arrasta é um saco de bolas. Somos {facilones}. O fácil é quererle. Não tem mérito. Ángel é um pedaço de pão em fato de treino. Da vida que lhe vive por dentro não tenho notícia, mas de tudo o resto {guardo} um lembrança entranhável. Por isso está aqui, entre os fantasmas da rua Sul; porque se cruzou em minha vida e me ensinou a querer ser melhor.

Ángel não é ninguém. Ninguém aos olhos de aqueles que se disputam as migalhas {desabridas} do banquete terrestre. Ninguém aos olhos de não ver. Ángel é, para além de ninguém, um homem bom; e isso basta para que a seu passo chegue o comandante e mande a parar. Basta e sobra. Los homens bons desprendem uma estranha doçura. Por exemplo, Ángel.

Nasceu um dia de 1955, em São Roque, que é como dizer que o bom são lhe vem de berço. {Macha} pela graça de Deus. Um de dez irmãos. Desde jovem trabalhando no que se terça. Tenho especialista/conhecedor que foi {yesista}. Esse foi seu ofício, mas nunca deixou de adorar bolas. Primeiro como jogador e depois como treinador. Sempre no mais baixo. Com os amigos, com os meninos,… Penso agora, ¡quanta sorte tiveram aqueles que lhe partilharam! Não sei que aprenderiam de futebol, nem se essa baliza que defendia ficou imbatível, mas sei que a graça da boas pessoas é o dom divino que ele reparte. Dessa se levariam um {puñadito}.

Ángel esteve no Dom {Bosco}. Logo no Badajoz Industrial. Bom para tudo. Daí, em 2006, se o trouxe Ambição {Blanquinegra} ao Clube Desportivo Badajoz. Ambição, aquela agrupamento de adeptos que se permitiu a {pirueta}, quase sem meios, de salvarle a vida ao plantel/elenco. O terão vocês lido: fizeram-no porque não sabiam que era impossível fazê-lo. Desde então Ángel foi o {utillero} do Badajoz. {Miento},… mas pouco/bocado. Quando em 2012 desapareceu por decisão judicial o Clube Desportivo Badajoz, quando desprezaram nos tribunais a proposta de Carlos Uriarte de fazer frente às dívidas, Ángel se passou à União Desportiva. Na verdade ficou no Viveiro. O Novo. O Badajoz {refundado} foi ao Velho e ali esteve um par de anos até que lhe devolveram, melhor dito, se devolveu a sim mesmo, seu estádio.

O que vou a contar não o tenho contado nunca. Lhe {ofrecimos} a Ángel seguir/continuar no Badajoz, no Clube Desportivo Badajoz 1905, mas éramos tão pobres que não podíamos pagar-lhe o pouco/bocado que lhe pagavam os outros. Lembrança essa chamada como se fora hoje. Me derrubou o alma. Ángel se {echó} a chorar. Um {macha} como ele, chorando porque não podia seguir/continuar ao plantel/elenco de seus amores. Mandavam as necessidades. Ángel tem outra família, a sua, e ele é quem a tira adiante. Não podíamos pagar-lhe: e, o que ainda era mais triste, nem sequer sabiamos se aquela aventura ia a durar mais duma época. Terminou a chamada e tive que tomar ar, sentar-me e deixar passar os pensamentos em vaga. Calibrar como a vida te põe à beira de determinados precipícios sem saber o como nem o quando. Calibrar o que vai de ir ao futebol aos domingos a trabalhamos/trabalhámos no futebol dia e noite, sete dias à semana, para que os teus comam. Não pude recriminarle nada. Esse dia lhe prometi que {volveríamos}. E {volvimos}. E Ángel estava ali. No Viveiro. O Novo. E voltou a seu posto de {utillero}.

A roupa nas bilheteiras, {inmaculado} o balneário. Sobre/em relação a o relva o retira e {pon} dos {conos} e as {picas}. Lava que te lava, Anjinho vive no Viveiro. É o guardião do castelo. É a liturgia de cada dia no estádio. Recebe aos jogadores e aos técnicos. Lhes despede. Abre e fecha. E lava. Anjinho cuida todos os detalhes. Tenta que nada falte e que nada incomode. Vai e vem. E lava. Anjinho se oferece a sim mesmo. Cada gesto está bem intencionado. Cada palavra é de carinho. E tudo o rubrica com um sorriso. Ri e chora. E lava. Subido a sua humildade nada lhe parece mau; primeiro se entrega e depois se faz as perguntas. E segue/continua lavando.

Aos domingos os aplausos se os levam outros, mas a Ángel não lhe importa. Está ali, em seu posto, esperando ordens. Com o garrafeira em estado de revesta e a vontade presta. Ángel mete golos de carinho. E vai, ¡vive Deus!, caminho de máximo goleador.