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Sempre ganha

 

JUAN JOSÉ Millás
04/02/2020

A boca é um nicho ecológico cuja reina é a língua. A língua chega a todos os cantos do nicho, os visita e às vezes os revê como uma inspetora da brigada político-social. Agora, enquanto escrevo estas linhas, a minha está revendo a gengiva da mandíbula superior, onde encontrou um par de {llagas} que sabem a eletricidade. Há outra na cara interna do lábio inferior, produto de um dentada involuntária. De resto, a {mucosa} que reveste as paredes húmidas da boca se encontra aparentemente em bom estado.

À tarde, após deixar-me cair no divã de meu terapeuta, a ponta da língua continua a revisão obsessiva da cavidade: no paladar, tropeço com umas linhas que evocam algum tipo de escritura. Me {pregunto} se os extraterrestres nos escrevem aí mensagens dos que não somos conscientes. Meu psicanalista me pergunta:

-¿Que faz você?

-{Muevo} a língua dentro da boca -lhe digo-.

-¿A que língua se refere?

-¿Como que a que língua me {refiero}?

-Sim, ¿à de falar, que é um mero músculo, ou à que está estruturada por signos linguísticos?

-Me deixa você de pedra.

Ela cala. Com efeito, eu acreditava {equivocadamente} que estava jogando com a língua física, mas, neste caso, a língua física não era mais que uma metáfora da mental. A mental é à que me passo todo o dia dando-lhe voltas, mas me subida reconhecê-lo.

-Tenho na gengiva superior um par de {llagas} que sabem a eletricidade -digo depois de um bocado-. Não deixo de tocar-me-les para ver se conquista curar-me-les.

-Melhor vá ao dentista. Essas {llagas} se chamam {aftas} e são de carácter vírico.

-{Afta} é uma palavra feia, prefiro chamar-les {llagas}, mesmo úlceras. Se convive melhor com uma úlcera que com um {afta}.

-Nessa altura -conclui- ao que você está a dar voltas na boca à língua como sistema de signos.

* Escritor