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Regime das segundas-feiras

 

PILAR Galán
07/11/2019

No domingo vou a votar com a mesma ilusão com que começo o enésimo regime cada segunda-feira, ou seja, com nenhuma. Muito antes de meter o voto no envelope , e este na urna, saberei já que minha eleição está condenada ao fracasso, que vou desistir enquanto tenha diante o prato de espinafres refogadas e o perú frio, e cairei sobre as batatas fritas e os pepinos, muito menos saudáveis mas mil vezes mais apetecíveis depois de um longo dia de trabalho. Pode que aguente até a quinta-feira, como muito, e se me apuras, até à sexta-feira ao meio-dia, mas no fim-de-semana virá a derrota da Quaresma e o triunfo de dom Carnoso, e onde disse digo, digo Diego e direi e dizia. Isto mesmo também vale para no domingo, e não estou/estamos tão mal quando nos olhamos ao espelho, e poderia/poderíamos estar pior, e por um bolinho não passa nada, e por pedir a terceira, também não. Mal de muitos, consolo de parvos, outro provérbio que poderia aplicar-se todas as segundas-feiras e este domingo, numas eleições que a este passo vão  acabar por converter-se em costume. A mesma ilusão, a mesma esperança de conseguir algo, de olhar-se e ver-se não mal, mas melhor, de deixar de culpar ao armário de que a roupa encolhe só e esquecer-se de alargar cinturas para ajustar limites e sobretudo, conseguir o que um se propõe. Por isso vou a votar, porque embora sumo já muitos anos de fracassos cada começo de semana, e também alguns êxitos que duraram o que a força de vontade, acredito que meu dever é tentá-lo. Pode que por saúde, por verme mais gira, por reinventar-me e ludibriar um pouco à morte que é o regime definitivo. Pode também que seja porque continuo acreditando que as outras opções são piores, não iguais, por mais que nos bombardeiem diariamente com informações contraditórias e a soma e segue de corrupções e enganos tenha alcançado o infinito e para além. Logo chegará no domingo à noite, o apuramento, a ilusão se calhar, e amanhecerá na segunda-feira com o súbito desejo de espinafres, brócolo e cenoura fervida. Perderei cem gramas. Começarão os pactos, os despropósitos, ou se calhar não. Engordarei dois quilos em lugar de perder-los. Ou provavelmente esta vez o boletim de voto que vou entrar no envelope  sem ilusão alguma me devolva se não a esperança sim a confiança em que as coisas podem ser de outro modo. Para já, eu não penso render-me. Alguma vez será que sim, e eu o verei não no espelho mas na realidade de cada dia, a única imagem que me importa.

*Professora e escritora.