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Poder/conseguir, ficção e carnaval

Sempre e em tudo lugar é, hoje, carnaval. Mas também controlo e submissão

 

Poder/conseguir, ficção e carnaval -

VÍCTOR Bermúdez
27/02/2019

Uma das funções desses ritos coletivos que {llamamos} «festas» é a de assegurar a ordem e coesão do grupo social. Através de emotivas cerimónias teatrais cheias de símbolos, as festas populares reúnem à pessoas num espaço comum (a praça/vaga, o templo, a ecrã de TV...) para reviver e celebrar o sentimento de pertenença e identidade em torno de crenças, valores, instituições e práticas comuns. A festa –por dizê-lo doutra forma– é um modo extraordinário, e extraordinariamente eficaz, de fazer que as pessoas se submeta com entusiasmo ao «ordem/disposição da tribo».

Para confirmá-lo não temos de ir muito longe. Pensem em nossas pautadas procissões e romarias (em que as hierarquias civis e militares aparecem tão oportunamente confundidas com as religiosas), ou no cerimonioso protocolo das festas pátrias (o Dia da Hispanidade, o da Comunidade Autónoma...), ou na ostentosa exibição de diferenças sociais típica das feiras do sul. Em todas estas festas nada se deixa ao acaso. Ninguém se sai do {tiesto}. E quem, por {descreído} e pouco/bocado impressionável, o faz…

… Antanho, estas «festas de celebração da ordem» podiam ser bastante mais explícitas. Adotavam, por exemplo, a forma de execuções públicas: uma espetacular exibição de poder/conseguir à que toda a população ia, em ordem/disposição, para comprovar o que acontecia ao que se o saltava. Algo de isso fica ainda nas festas –tão comuns em Espanha– em torno do sacrifício ritual de um «bode expiatório» (um personagem simbolista ao que tudo o povo/vila {apalea}, {apedrea}, {decapita} ou queima). Parece que poucas coisas geram tanta união e acordo/compromisso com a ordem como o ódio partilhado ao inimigo (o réu, o traidor, o herege, a bruxa...). Às vezes, a vítima propiciatória destes linchamentos coletivos é uma sorte de rei destronado: o rei do carnaval…

… O carnaval parece um caso estranho de ritual feriado. Nele não se consagra a majestade ou o rigor da ordem e a lei, mas bem pelo contrário: o {irrisorio} de tudo ordem/disposição e o {gozo} do sem lei. O carnaval é o que chamam uma «festa de investimento», na qual em vez de celebrar o poder/conseguir real, a nobreza do herói ou a virtude do santo, se engrandece ao personagem mais {bufonesco}, {truhán} e lascivo, outorgando-lhe, por uns dias, o cetro de um «mundo ao revés» em que os escravos são os {amos}, os homens comportam-se como mulheres, os burros celebram missa e os clérigos {retozan} como animais... Nos velhos carnavais, as festas de escravos, as missas de loucos do Medievo, ou as antigas {saturnales} latinas imperava um mesmo espírito de subversão, descontrolo, e ludibria sem termo … ¿Mas como é que se permitia isto? ¿Que sentido tinha esta outra festa?…

Não é difícil imaginá-lo. O carnaval é a ficção com que se compensa e regenera essa outra ficção que é a legitimidade da estrutura social. Assim, no carnaval se encenam da maneira mais grotesca possível as pulsões que o poder/conseguir «contém» –a violência, a sexualidade sem lei, a crítica {revulsiva}– para, levando ao extremo a cerimónia do desordem, renovar o desejo de ordem/disposição e a necessária conformidade com ele. Desse modo, no fim do carnaval, e uma vez cumprida sua função, se sacrifíca ao «rei de troças» e se representa o glorioso regresso do rei verdadeiro –do deus renascido– eixo em torno do que tudo volta a seu lugar natural.

Poucos verão, no entanto, tudo isto nos carnavais atuais, que apenas são já mais que uma amável festa turística. Talvez porque hoje o «verdadeiro carnaval» já não celebra-se {colectivamente} na rua, nem numa data determinada, mas duma forma tão diluída como o mesmo poder/conseguir ao que serve. O carnaval –a ilusão/motivação de ser outro, a rutura com os limites, a desinibição sexual, a violência a discrição, a riso {descarnada}...– celebra-se agora nesses particulares mundos de ficção que nos proporcionam os meios e as redes sociais. Meios e redes através dos que também se nos ordena, normaliza e vigia constantemente. Sempre e em tudo lugar é, hoje, carnaval. Mas também controlo e submissão. O baile de máscaras jamais foi tão perfeito.

*Professor de Filosofia.