+
Accede a tu cuenta

 

O accede con tus datos de Usuario El Periódico Extremadura:

Recordarme

Puedes recuperar tu contraseña o registrarte

 
 
 

El Planeta de Cercas

 

MARIO Martín Gijón
26/10/2019

La pasada semana, Javier Cercas (Ibahernando, 1962) somou a seu já larga coleção de prémios literários o Prémio Planeta, como é sabido, «o melhor dotado das letras espanholas» com 601.000 euros, sendo o finalista Manuel Vilas, com só/sozinho 150.250 euros. Cifras respeitadas para um ofício como o de escritor que, normalmente, não dá para comer salvo a alguns afortunados pelos deuses do {olimpo} editorial. Tanto/golo Cercas como Vilas são, sobretudo o primeiro, representantes do que tem vindo a chamar-se «romance sem ficção», onde o protagonista é o próprio autor, que considera sua vida tão interessante como para prescindir da imaginação.

La única vez que vi pessoalmente a Cercas foi a princípios do milénio, quando apresentou Soldados de {Salamina} na Biblioteca Pública de Cáceres. Ainda não era uma celebridade e a biblioteca estava quase vazia para ouvi-lo, apesar de que o romance se tivesse publicado em {Tusquets} (logo, como é sabido, se passou a {Mondadori}). Me caiu bem Cercas por um par de comentários, como quando um professor entusiasta o comparou com Cervantes e ele replicou aflito que «por favor, eu ao lado de Cervantes sou uma barata». Também reivindicou sua identidade extremenha, dizendo que em Catalunha ele sempre recordava que não era dali, mas de um pequeno povo/vila cacerenho do qual emigrou sendo menino. Como outros extremenhos emigrados a Catalunha, se dizem extremenhos quando vêm por aqui e se prezam ali de ser tão catalães como o que mais.

No ano seguinte de assistir a essa apresentação seria eu quem emigrasse, temporariamente, a Alemanha, onde passei cinco anos, trabalhando enquanto escrevia minha dissertação douta. Na Universidade de {Marburgo} {asistí} a uma cadeira sobre/em relação a «o romance da memória» (ali, ao contrário que em Cáceres, se emprestava mais atenção à literatura atual que à do século XVIII), onde uma das leituras obrigatórias era Soldados de {Salamina}. Me gostou o livro, sobretudo por a sua mensagem, necessário numa Espanha onde apenas se falava da guerra civil, embora pela forma não me atraiu demasiado. Agustín García, velho amigo de Villanueva, que apesar de ser químico é (e suponho continua a ser) um grande leitor de literatura, resumiu que «está bem, embora não é para tanto/golo». Das seguintes romances de Cercas só/sozinho {leí} algumas, a última El impostor, que me {aburrió} bastante e terminei com esforço. El estilo, reles, e o argumento, egocêntrico, me esgotavam, embora entendo que conetam com grande parte do público. Sua leitura é fácil, e até deve animar a muitos: se escrevendo assim (sem ser para tanto/golo) se pode ser famoso, qualquer pode chegar a sê-lo, com sorte (e sem necessidade de talento). Ao contrário de as obras exigentes, que os grandes editores consideram que não são «amigáveis para o leitor» pois, com efeito, o livro que tem as vendas garantidas é o que até os parvos podem ler, o qual garante audiência, como a tem Telecinco.

Um amigo, ao que {considero} um dos narradores mais originalíssimos de sua geração, viu como uma obra sua era rejeitada por ser, em palavras de seu agente, «demasiado literária» e me dizia: «Que qualificativos como «literária», «exigente» ou «complexa» se tenham convertido em desqualificações o diz tudo sobre/em relação a o estado atual do mundo editorial. Escrevemos baixo/sob/debaixo de uma censura que ninguém ou quase ninguém censura publicamente. Já não se trata de preservar os valores do nacional-catolicismo, mas de dobrar-se às modas do mercado ou de seus alegados intérpretes. Hoje em dia resulta difícil publicitar algo que não seja um romance {policíaca} ou uma autoficção. ¿Há tanta diferença entre ter que escrever sobre/em relação a paladinos da fé cristã ou sobre/em relação a detetives e a morte de teu avô?» Que se o perguntem a Javier Cercas.

*Escritor.