+
Accede a tu cuenta

 

O accede con tus datos de Usuario El Periódico Extremadura:

Recordarme

Puedes recuperar tu contraseña o registrarte

 
 
 

O que Mario não contou

Ainda sabendo que seu «outro» terreno de jogo era político optou por facilitar ao rival o melhor terreno

 

O que Mario não contou -

ALBERTO Hernández Lopo
25/10/2019

No meio da poluente e omnipresente atenção mediática à situação em Catalunha, temos vivido nesta semana a saída de Mario Draghi como presidente do Banco Central Europeu. Tem certa lógica que se lhe tenha emprestado uma menor atenção, embora se calhar seja excessivo o escassíssimo eco que o final de o seu mandato está tendo em Espanha. Certamente, pelo que tem representado o passo do italiano na definição da nossa situação atual. Mas especialmente pelo impacto de seu (possível) legado.

É difícil realizar agora uma análise imediato e ajustado de o seu mandato e da herança que deixa a Lagarde. Em parte, porque os efeitos de sua política monetária e fiscal estão ainda por definir-se e tardarão anos em avaliar-se corretamente. Sobretudo porque seria um erro medir exclusivamente as decisões e medidas, obviando o inegável perfil político que Draghi se tem visto a adotar e com o que tem apetrechado à instituição comunitária. Sem isso, a imagem estaria incompleta.

Passaram mais de sete anos do famoso discurso que articulou a salvação/manutenção do euro («farei o que seja necessário»). Nossa moeda comum estava longe de poder/conseguir confiar sua sobrevivência à salvaguarda duma classe política que bastante tinha com acalmar a os seus votantes e entender o que estava passando. A posição do romano esse dia foi política, algo alheio ao cargo.

O certo é que a frase encerra dois de seus grandes medidas certas. Entre a contundente declaração e o início da toma efetiva de medidas de descontração monetária passaram quase três anos. A firmeza de Draghi em defesa do euro, no entanto, conseguiu acalmar a uns mercados que não acreditavam na viabilidade da moeda e evitou maior pressão sobre/em relação a a dívida dos chamados «{PIGS}» (Portugal, Itália, Grécia e Espanha). Draghi entendeu que, em tempos convulsos, de hiperinformação e portanto de reações {cuasi} imediatas, a comunicação era um arma. E não uma mais, mas um mecanismo realmente poderoso. Como depois seguiu/continuou provando em seus habituais conferências de imprensa, com mensagens mesmo dirigidos à oposição/concurso público dentro do próprio banco central.

{Acertó} igualmente em afastar-se da {ortodoxia} do mandato do BCE. Entendeu que sua missão não se limitava ao controlo da inflação (de facto, não cumprido) e se afastou do «dogma» que se supõe para um banqueiro central e se {adentró} no terreno político. Isso conduziu suas atuações para além de o {reglado}, absorvendo dívida dos países membros e levando as taxas de juro reais ao zero. A realidade é que Draghi evitou mais despejos e maiores/ancianidade cortes que qualquer político que pretende {arrogarse} essa condição na Europa. Essa compreensão dos tempos difíceis e a sua vontade de atuar mais além do quadro dado (e do curto prazo), situam a Draghi em seu adeus como um dos principais arquitetos da união de Europa. Em seu ter, a construção de consensos, desde os limitadas molas do sistema financeiro, frente a uma inércia alarmista que advogava por um regresso (nacionalismo) ou uma rutura (populismo).

Seus críticos –abundantes e muito díspares-- assinalam seus erros a miúdo sem contemplar as alternativas com profundidade de campo com as que as tratou Draghi. Mas não estão também não errados em pôr em questão a falta de decisão na consolidação da banca europeia (não sabemos se ainda há «zombies» entre nossas entidades), o excessivo tamanho do balanço do BCE (uma enorme bola de dívida) ou a carga/carrega aos futuros contribuintes. Mesmo não ter optado por medidas ainda mais audazes, evitando canalizar a «impressão» de dinheiro através do sistema bancário.

É complicado saber neste momento se todas essas críticas estão completamente fundadas. O tempo será melhor juiz. Na verdade, é o reverso dalguns de seus medidas certas o que cabe pôr no deve do italiano. Sua perene insinuação de que suas medidas monetárias não forneceriam o adequado efeito sem a disciplina fiscal dos governos e sem aumentar o défice público se ficou como um {pescozón} de freira. Nenhum governo tem seguido/continuado a senda de suas advertências, mas não duvidaram em beneficiar das vantagens da descontração monetária.

Draghi sabia que a política monetária servia para controlar os excessos partidaristas que sacodem Europa. Ainda sabendo que seu «outro» terreno de jogo era político optou por facilitar ao rival o melhor terreno de jogo. E isso, Mario, não o contou nunca.

*Advogado. Especialista em finanças.