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{Bolsonaro} contra a filosofia

Diz que estudá-la é um luxo desnecessário, e que vai sendo hora de fechar essa faculdade

 

{Bolsonaro} contra a filosofia -

VÍCTOR Bermúdez
08/05/2019

Sustenta {Bolsonaro} que estudar filosofia é um luxo desnecessário, e que já vai sendo hora de fechar essa faculdade que não autoriza para abrir mercados, curar feridas, levantar pontes, nem nada meio sério que se lhe pareça. Resulta que tratar do «ser», a «verdade», a «bondade» ou a «justiça» não serve –verdadeiramente– para nada –nem sequer para tentar ser um político sábio, bom e justo–. Que lhe vamos a fazer. Ou {Bolsonaro} é um incipiente {Nietzsche}, ou um objetivo/meta-parvo de cuidado.

De todos modos, a rejeição da filosofia como saber irrelevante (ou impertinente) em Brasil (e outros lugares) não é só/sozinho questão de ignorância. Nem de política. É certo que –especialmente em América latina– algumas faculdades têm fama de «subversivas» ou «esquerdistas» (entre elas as de Filosofia), e que o governo de {Bolsonaro} ameaça com uma política educativa {fascistoide} (controlo ideológicos dos professores, regime policial nas escolas, retirada de fundos a universidades «conflituosas»). Mas nem a filosofia é, em rigor, de «esquerdas» (nem de «direitas»), nem deixou de ser relativamente tolerada por estados muito mais fascistas que o de {Bolsonaro} (muito conscientes da eficácia daquela quando se a {pervierte} e instrumentaliza ideologicamente).

Mais que a simples ignorância ou motivos políticos, a impugnação da filosofia obedece, em sentido largo, à expansão do espírito pragmático e puritano da cultura anglo-saxónica. Aí têm, por exemplo, a influencia cada vez maior do {evangelicalismo}, não só/sozinho em Brasil (onde é a fonte reconhecida de autoridade moral do governo de {Bolsonaro}), mas em toda América latina. Temos de {recordar} que, à diferênça do que acontece na tradição católica, as igrejas evangélicas –e, em geral, protestantes– se fundam numa conceção radicalmente {fideísta} e {anti}-{intelectualista} da religiosidade. A Deus –afirmam– só/sozinho se acede através da fé (e não de raciocínios teológicos ou representações sensitivas). Consequentemente, e a imagem do alegado cristianismo primitivo, o protótipo moral do {evangelicalismo} é o duma pessoa simples que se limita a trabalhamos/trabalhámos, amar aos seus, e satisfazer o resto de suas necessidades espirituais no templo. «Ora {et} {labora}». Não há mais. A busca do conhecimento {per} se é vã {curiositas}. E a razão –como dizia {Lutero}– a prostituta do diabo.

Este {anti}-{intelectualismo} enraizado na religião protestante (e em sua fixação pelo Antigo Testamento –no qual a origem do mau consiste em provar o fruto do árvore da sabedoria–) é um dos motivos que explicam a ausência quase total de educação filosófica na maioria dos países anglo-saxónicos. Se Deus, por sua transcendência, é completamente inexequível ao conhecimento humano –como reza o protestante–, tudo o associado ao {trascendente} (o princípio e finalidade do real, o sentido da vida, o critério último verdadeiramente, a reflexão sobre/em relação a os valores…) e objeto da filosofia, também deve ser {incognoscible}, pelo que, ¿para que incomodar-se em estudá-lo?

A conceção {evangelicalista} do mundo não só/sozinho é filosoficamente muito discutível (como toda {metafísica} o é), mas também perigosa, pois deixa em mãos de minutas irracionais (livros santos, telepregadores, gurus da espiritualidade...) não já o assunto do sentido da própria existência, mas também os valores e, com eles, o fundamento da vida pública.

Mas o pior é que este modo de entender as coisas se expande a velocidade de vertigem por todos lados (muito mais que outros fundamentalismos mais {broncos}, como o islâmico). O podemos ver nas últimas (¿e próximas?) remodelações educativas na Europa, cuja «filosofia» é que a filosofia –esse {malsano} gosto de pensar por pensar –, como tudo outro saber não diretamente conversível em práxis produtiva, é algo vicioso e esterilizador. A escola terá de ensinar, ao sumo, e como complemento aos saberes treinador-científicos/cientistas, um {compendio} de religião, psicologia prática (educação emotiva) e formação em valores (cidadania e bons costumes). ¿Para que mais? Ora {et} {labora}. {Bolsonaro} mostra o caminho.

*Professor de Filosofia.