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Bendita febre

 

ROSALÍA PERERA GUTIÉRREZ Abogada
27/02/2019

Meu amor é uma febre que incessante anseia». Embora às vezes só é isso, um calor que sobe, físico, sem um pobre sentimento ou um verso que deitar-se à boca, para enxuagá-lo. Um vírus real, impertinente, inoportuno sempre, que encontra vazio por onde entrar, a fraqueza, a guarda baixa. E se instala dentro, e o imaginamos parasita das nossas horas. Nos rouba a força e nos salva, ao mesmo tempo, do abismo, porque, simbióticos, combatimos juntos a infeção. Os músculos estão doridos, com essa contraditória sensação que deixa o esforço sobre o corpo. Como a sequela do exercício físico desaconstumado. Dores musculares trémulos que não se aliviam ao esticar os braços, as pernas que num espasmo  recolhem se,  dobram se, procuram ser novelo e desdisenhar-se num tempo esquecido de sim mesmo. As tardes  prolongam se, inconscientes, sedentas, como a memória de um bêbedo, deixando nos lençóis um cheiro a suor e a penicilina. Enquanto, a camomila, a luz sempre em vigília na mesa de noite, a toalha húmida sobre a frente, o livro desconcertado no seu abandono. E o abandono. Essa doce desídia que se desliza desde as têmporas, baixo as axilas, percorrendo os costados, procurando o lado fresco da cama. Essa macia pergiça que continua ao dor, já apaziguado, e nos afunda debaixo das cobertores, quase usufruindo do calafrío. Fechamos os olhos num suspiro que alta a dobra, fazendo o borda, duvidando por um instante se será possível soltar as rédeas, as ataduras, tanto afã, e como num descuido, suave, sem ruído, deixar-se ir. Os vidros estão embaciados, o aquecimento ronrona, alguém prepara uma sopa e o vaho, sem cheiro, sem sabor, treme na travessa que se aproxima, deslizando-se em voz baixa pela garganta. Os almofadões  colocam se; esticam-se,  ordena se a cama e, gole a gole, o pensamento. Chegam outras febres à memória: A do soneto de Shakespeare, a que Gelman deposita como uma gota condensada no umbigo da sua amada, a que no fandango queima porque querer dá febre, a Fever que a Peggy Lê lhe subia quando a beijavam. Bendita febre. Se aireia o quarto,  mudam se as savanas, a duche fresco limpo a amanhã.