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El Periódico Extremadura | Terça-Feira, 26 de septembro de 2017

Vítima de um drama silenciado

POR NANDO SALVÁ
26/03/2017

 

A vida de José Antonio Gurriarán mudou para sempre o 30 de dezembro de 1980. Aquela tarde passeava pelo centro de Madrid quando uma explosão teve lugar em plena Gran Vía. Nada mais entrar numa cabina telefónica para informar ao diário/jornal Povo/vila, do qual era subdiretor, {detonó} justo ao seu lado um segundo artefacto, colocado pelo Exército Secreto Arménio para a Libertação de Arménia ({ASALA}). Suas pernas ficaram destroçadas. Passou um ano entre salas de operações para salvá-las.

«Não sei se foi porque meus pais eram pessoas de paz, ou porque sempre fui seguidor de {Ghandi}, mas não senti nem ódio nem rancor», recorda agora o jornalista, hoje em cadeira de rodas mas ainda cheio de paixão. Em lugar disso pôs-se a estudar a história dos arménios, do horrível genocídio que sofreram em 1915 a mãos de Turquia e de sua longa luta contra o esqueço.

E não só/sozinho isso. José Antonio -Gurriarán moveu céu e terra até que meses depois, após viver situações próprias de filme de espias e jogando-se a vida, viajou até Líbano para reunir-se com os líderes de {ASALA} e com os atacantes de Madrid. «Se calhar {actué} movido pelo síndrome de {Estocolmo}, se calhar por mera inércia profissional», explica. «Necessitava falar com eles, saber porque é que punham bombas em plena Natal num país que não tinha nada a ver com sua história».

Sua história –relatada em seu dia no livro de memórias A bomba (1982)– tem servido de ponto de partida para Uma história de loucos, o filme mais ambiciosa e mais pessoal de Robert Guédiguian. Filho de um arménio e duma alemã –«os genocídios são coisa de família»– e dotado de um inesgotável acordo/compromisso político, o diretor {marsellés} levava muito tempo interessado em levar à ficção a página mais dorida da história de seus antepassados {paternos}. «Desde que {empecé} a fazer cinema faz 35 anos tenho sentido responsabilidade até Arménia, e se calhar fora isso o que me impedia encontrar o foque adequado», aponta Guédiguian, que faz uma década já dirigiu o documentário Lhe {voyage} em {Arménie} (2006). Tudo mudou quando faz sete anos conheceu a Gurriarán num festival arménio em {Marsella}.

A história de {Aram}

Desde na sexta-feira na cartaz, Uma história de loucos transfere os factos/feitos a território gaulês –«em Espanha a comunidade arménia é muito pequena, e em minha cidade representa o 10% da população», explica o diretor– para contar a história de {Aram} ({Syrus} {Shahidi}), um jovem que em finais de os 70 se incorpora ao {ASALA} e que em Paris participa num atentado contra o embaixador de Turquia. O ataque causa graves feridas a um ciclista que passava por ali.

À volta de esse incidente, o diretor usa a luta de várias gerações de arménios contra o esqueço para falar de assuntos como a identidade e os mecanismos da luta armada, e no processo mostra-se dividido entre a convição de que certas causas demandam soluções violentas e a certeza de que, em si mesma, a violência é condenável. «A princípios dos 80 teve uma centena de ataques do {ASALA} e outros grupos contra os interesses políticos e diplomáticos de Turquia», recorda. «E eu os {justifico}, há situações nas que a luta armada é necessária. Outra coisa é a violência contra inocentes. O do {Daesh}, por exemplo, é um disparate».

Para Gurriarán não há exceções. «As bombas nunca estão justificadas embora às vezes possa entender-se porque é que se colocam. O terrorismo nunca foi eficaz. Nenhuma explosão é tão potente como a não violência». Cineasta e jornalista coincidem plenamente ao considerar até que ponto a barbárie foi somatizada de forma incurável pelo povo/vila arménio. «Trata-se de uma melancolia muito particular, sentem ter chegado a este mundo quase de milagre, só/sozinho porque seus antepassados conseguiram sobreviver», lamenta Guédiguian. Segundo Gurriarán, «esse sentimento nunca desaparecerá a menos que os turcos reconheçam o que fizeram».

Manipulação

No país do {Bósforo}, afirmar a existência do genocídio é considerado um insulto à pátria. «Os sucessivos governos de {Ankara} têm recorrido à manipulação histórica para fazer que o povo/vila turco esqueça», acrescenta o jornalista, que leva décadas advogando pelo reconhecimento do genocídio –em 2008 escreveu um segundo livro, Arménios, o genocídio esquecido–. «O fazem por motivos económicos, e porque tradicionalmente têm baseado boa parte de sua autoridade no amor à bandeira». Nesse sentido resulta paradoxal que o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, utilizasse recentemente a palavra «nazis» para dirigir-se a Alemanha, um país que sim saldou contas com seu passado.

Na atualidade há uns três milhões de arménios em chão {patrio} e entre seis e oito milhões no estrangeiro. «Eles não esquecem, nem ao milhão e meio de vítimas mortais nem aos 600.000 deportados, e não esquecerão até que os mortos descansem em paz», acrescenta Gurriarán. Por interesses comerciais, militares, geopolíticos ou religiosos, a maioria de países da comunidade internacional –entre eles Espanha– não têm condenado o genocídio. «Na verdade os arménios são vítimas por verba/partida dobro. Faz cem anos o foram das matanças; hoje o são do silêncio».

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