Menú

El Periódico Extremadura | Segunda-Feira, 20 de novembro de 2017

«Com 8 anos, já desafiava mesmo a Deus»

POR NURIA MARRÓN
26/03/2017

 

La escritora e ativista egípcia {Nawal} O {Saadawi} conserva a mesma energia que lhe serviu, quatro décadas atrás, para nomear à besta e aguentar logo o {bumerán} de consequências. Com La face oculta de Eva ({Kailas}) e Mulher em ponto zero (Capitão {Swing}), dois obras que agora voltam a reeditar-se, a autora marxista assinalou os abusos e violências machistas que, nas {penumbras}, exerciam desde homens revolucionários e governantes até professores e pais de família. No entanto, muito cedo descobriu que sair da gaiola não sai gratuito, como testemunha o historial de despedimentos, {escarnios}, condenações e inclusivamente ameaças de morte aos que agora passa revesta com umas luvas brancas de encaixe que se calhar sejam a única concessão que faz a seus 86 anos.

–Eu fui uma menina muito rebelde. ¿Sabe? Já de pequena, desafiava a Deus.

–¿E como desafia uma menina a Deus?

–Minha avó era camponesa e analfabeta. E o presidente da Câmara Municipal do povo/vila, que se levava seu algodão, costumava tratá-la muito mau, com muito desprezo, igual que ao resto de agricultores. «Sois uns ignorantes», lhes gritava. «E tu, mulher –lhe dizia–, ¡não {has} lido o {Corán}! ¡Não {sabes} nada de Deus!». Mas um dia minha avó se fartou e lhe replicou: «¿Quem te disse que o {Corán} seja Deus? ¡Deus não é um livro, Deus é justiça e o conhecemos através de nossa mente!». Eu tinha 5 anos quando {escuché} aquilo. E {comprendí}.

–¿Que compreendeu exatamente?

–Que Deus é justiça. Por isso, quando {empecé} a notar que meu irmão tinha mais direitos que eu, apesar de que eu era melhor estudante, me {revolví}. Me queixava e minha família me dizia que os jovens valiam mais que {nosotras}. Por isso {cogí} lápis e papel e {redacté} a primeira carta de minha vida. «Deus –escrevi–, minha avó me disse que tu {eres} justiça. Mas se não {eres} justo e não {llego} a ser igual que meu irmão, não estarei lista para acreditar/achar em ti». ¡E só/sozinho tinha 8 anos!

–E depois falou de sua própria ablação. Em lugar de esconder a ferida, a mostrou com insolência e valentia.

–O certo é que eu tinha esquecido minha própria mutilação. Completamente. Sofria {amnesia} infantil, um mecanismo de defesa dos meninos para esquecer a dor. No entanto, já com 20 anos, quando {entré} à Faculdade de Medicina e {empecé} a ouvir o pranto de meninos e meninas nas consultas dos médicos... {recordé}. {Recordé} aquela noite na qual, com 6 anos, me tiraram da cama, me levaram ao lavabo, me abriram os coxas ao máximo, e com uma {cuchilla} me cortaram um pedaço de carne.

–E também recordou a a sua mãe, que falava {amigablemente} com aqueles estranhos.

–Sim, acredito/acho que aquele foi o golpe mais duro. Minha família era cultivada, mas a costume de cindir o {clítoris} estava nessa altura muito estendida no campo e as cidades. Por isso quando {recordé} o que me tinha passado, me {comprometí} a trabalhamos/trabalhámos em minha própria recuperação e em ajudar a todas as meninas. Não queria isso para minha filha. E aí começou minha luta.

–Também começaram a atacá-lo, desde intelectuais até religiosos e políticos. Desavergonhada, lhe chamavam.

–Sim, tinha tocado um tabu muito enraizado. ¡Mesmo os médicos se me {echaron} em cima! Eu era diretora de Saúde Pública e o ministro de Saúde me despediu. Toda a gente se voltou contra mim. O Governo, muçulmanos, cristãos... Por aquele nessa altura, também {empecé} a falar da sexualidade da mulher, de como se nos proibia o goze, e {luché} contra o conceito/ponto da virgindade. Tinha mulheres às que matavam porque não sangravam a noite de casamentos. ¡E eram inocentes!

–Nessa altura conheceu a uma prostituta condenada a morte por ter matado a seu proxeneta e redobrou sua rebeldia.

–{Firdaus}, a protagonista de Mulher em ponto zero, é a mulher com mais coragem que tenho conhecido. Preferia morrer a pedir clemência ao presidente, quem certamente a teria indultado. Era muito mais valente que eu.

–¿Porque é que lhe marcou tanto/golo a história de rebelião perante as opressões de classe e género que lhe contou aquela mulher antes de ser executada?

–Porque após ouvi-la, {comencé} a envergonhar-me de minhas próprias mentiras. Em adiante, {empecé} a rejeitar à autoridade. {Desafié} ao presidente {Sadat}, logo a Mubarak, me {enfrenté} aos religiosos de todos os credos, aos médicos, me {divorcié} de meu marido. ¡Como me têm odiado meus maridos!

–¿Que tipo de misérias descobriu em seus três casais?

–{Supongo} que as mesmas que o resto de mulheres. Mesmo diria que fui um pouco/bocado mais afortunada, porque nenhum marido, nem ninguém, me chegou a oprimir.

–No entanto, diz que sobreviveu de milagre a seus três casais. A o seu segundo esposo mesmo o ameaçou com o bisturi para conseguir o divórcio.

–¡Exatamente! Era um homem de direito e me dizia «¡é a lei, a lei, {lograrás} o divórcio quando as rãs criem cabelo!». Mas o {conseguí}. O casal é uma instituição opressiva. E a maternidade também, porque pode converter-se numa prisão.

–¿Uma prisão?

–Sim, porque nos obrigam a sacrifícar-nos pelos filhos. Conheço a muitas mulheres que querem divorciar-se de os seus maridos, mas ficam com eles pelos meninos. Eu não era assim. Nunca, nunca, me senti escrava nem de meus filhos nem de ninguém. Meu nome esteve durante muitos anos numa lista de pessoas ameaçadas de morte. E eu preferia que me matassem antes que converter-me em escrava.

–Mas acabou-se exilando a EUA. ¿Qual é o preço mais alto que tem pago?

–Eu {aprendí} muito vivendo fora de meu país. Mesmo na cadeia, a onde me enviou {Sadat} por opor-me aos Acordos de Paz entre Egito e Israel. Foi uma experiência dorida, sim, mas também enriquecedora. Ali, às escondidas e sobre/em relação a papel higiénico e de enrolar, escrevi Memórias da cadeia de mulheres, uma de minhas melhores obras. Por isso, sem dúvida, o preço mais alto que tenho pago foi ver como o Governo ameaçava e coagia a meus filhos para castigar-me. Sim, isso foi o mais doloroso.

–¿Se tem sentido só?

–Não, foi minha eleição. Além disso, na luta política sempre estive rodeada de pessoas jovem. Muitíssimos jovens me deram seu apoio. Homens e mulheres.

–Alguma vez disse que se a vida descobre que não {tienes} aguilhão te devorará. ¿La escritura foi o seu?

–¡Exato! Escrever foi meu arma.

–E também a tem posto em perigo.

–Sim, mas foi minha maior proteção, porque me deu poder/conseguir. Ninguém pode tocar-me agora. ¿Para que vão a matar-me? Meus livros já estão aí, seria algo inútil. Faz muito tempo tinha medo a que me matassem e também temia ao exílio. Agora já não. ¡Já passei por tudo! Já me tenho habituado a tudo, exceto à idade.

–¿E como se vê o mundo desde os 86 anos?

–Com ambivâlencia. La luta em favor da igualdade entre homens e mulheres e entre ricos e pobres é uma batalha que vai-se ganhando e perdendo ao mesmo tempo. Sempre se ganha e se perde. Assim é a vida. No entanto, acredito/acho que o capitalismo e as religiões, não só/sozinho o islão, são os principais problemas das mulheres em todo o mundo.

–Pouco/bocado se fala das mulheres migrantes, ¿não acredita?

–Certo, e a sua situação é horrível, terrível. África é um continente muito rico empobrecido pelo {colonialismo}. E agora mulheres e homens emigram a Europa para poder/conseguir recuperar seu dinheiro. ¡Não vêm a pedir esmola! Mas muitos europeus não o entendem e acreditam que chegam para roubar-lhes.

–Esteve muito ativa na revolta de {Tahrir}. ¿{Desesperanzada}, ao ver como têm terminado os protestos?

–¿Porque é que? ¡Eu continuo/sigo muito esperançosa!

–Parece que a repressão com o presidente Ao-{Sisi} é pior que com Mubarak.

–O que faz Ao-{Sisi} é manter unido o Exército, para que Egito não se {desangre} e se converta noutra Síria. E as pessoas lhe apoia. ¿Saberia dizer-me porque é que Europa, EUA e Israel estão em seu contra e dizem que é um ditador? ¡Porque preferem um país dividido e débil para voltar a explorar-nos!

–Entre outras denúncias, {Aministía} Internacional assinala a existência de 40.000 presos políticos.

–¡Isso são grandes mentiras! ¿Talvez têm vindo a contar aos presos? Também os há em Israel e EUA. ¿Porque é que não falam deles? ¿Ou é que Egito é o único país que tem? ¿Você acredita que Amnistia Internacional está interessada em minha liberdade? {Jajaja}. Vivemos numa {jungla} de mentiras.

–Ouça, ¿você nunca baixa os braços?

–La esperança é poder/conseguir. Meus pais me transmitiram uma grande confiança em mim mesma. E quando {sientes} essa força interior, é muito difícil que alguém possa submeter-te. Eu me tenho sentido poderosa mesmo estando na cadeia. Acredito/acho que essa força me vem de minha avó e da deusa {Isis}. ¿Sabe? Igual sou uma espécie de neta sua.

As notícias mais...