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El Periódico Extremadura | Sexta-Feira, 3 de abril de 2020

O vírus da Coroa

A Transição espanhola foi, a grandes traços, um enorme engano

ENRIQUE Pérez Romero
10/03/2020

 

No passado 29 de Fevereiro {Corinna} {Larsen} declarou em ‘The {Daily} {Mail}’ que denunciará a Juan Carlos de {Borbón}, rei emérito de Espanha, por ameaças para que não revele «segredos de Estado». Três dias depois se soube que a Procuradoria Anticorrupção tinha remetido uma comissão {rogatoria} a Suíça para conhecer os detalhes da investigação que leva-se a cabo sobre/em relação a a doação de 65 milhões de euros de Juan Carlos a {Corinna} mediante uma fundação panamenha. O dinheiro proviria duma comissão de 100 milhões de dólares que {Arabia} Saudita teria ingressado nessa fundação, como resultado da adjudicação da obra do TGV a A Cima.

Uma das grandes façanhas da Transição foi converter a Juan Carlos I em intocável. Nomeadamente, segundo o artigo 56.3: «A pessoa do Rei é inviolável e não está segura a responsabilidade». Isso quer dizer, na prática, que nunca será tribunal/réu/julgado em território espanhol —e {dudosamente} fora— por absolutamente nada do que tenha facto/feito, seja isto o que {fuere}.

As coisas, no entanto, se estão complicando. Primeiro, porque a cadeia de factos/feitos investigados já não é só/sozinho coisa de Espanha. Afetam, por enquanto, a quatro Estados mais: {Arabia} Saudita, {Panamá}, Reino Unido e Suíça. Também não lhe afetam já só/sozinho a ele, dado que, para além de {Corinna}, está implicado, já de facto, o inefável excomissário José Manuel Villarejo, cujos assuntos estão {judicializados} na Operação Tandem. Além disso, {Corinna} {Larsen}, nessas recentes declarações, tem implicado ao ex-diretor do CNI, {Félix} {Sanz} {Roldán}, que o foi com José Luis Rodríguez Zapatero (2009-2011), Mariano Rajoy (2011-2018) e Pedro Sánchez (2018-2019).

Para além de por tudo isto, as coisas se estão complicando porque tudo o que acontece com Juan Carlos acaba manchando, de uma forma ou de outra, a Felipe VI. E não só/sozinho por omissão —o silêncio cúmplice e {absolutorio}— mas, sobretudo, porque tudo o que tenha que ver com dinheiro mais ou menos sujo, mais cedo que tarde se converterá em herança. Tendo em conta que já não vivemos nos «felizes oitenta», em que falar da coroa estava pouco/bocado menos que proibido, e que já tem saído à luz suficiente informação para que a suspeita sobre/em relação a ao património dos {Borbón} seja mais que fundada, se lhe vai fazer muito difícil a Felipe VI sustentar sua credibilidade.

Também não temos de esquecer que o regime fundado por o seu pai se {resquebraja} inevitavelmente desde/a partir de 2011. Do mesmo modo que o próprio Juan Carlos foi símbolo da Transição, a evidente decadência do modelo político surgido daquele pacto tornou-se em símbolo da decadência da Coroa.

Durante muitos anos se olhou para outro lado e se ativou um esqueço que certamente fazia parte do stress posttraumatizado duma sociedade ferida, psicocomo é lógico condicionada por uma terrível guerra e por uma cruel ditadura de quase meio século. Se olhou para outro lado com um golpe de Estado que {sospechosamente} serviu para consolidar a figura de Juan Carlos como um herói —{consúltese} a larga/ampla historiografia em relação— e se esqueceu que a Monarquía foi uma decisão de Francisco Franco.

Mas às gerações que já não estávamos condicionadas pelo medo nos deu por pensar. E está já {meridianamente} claro que a Transição espanhola —certamente o menos mau que lhe pôde passar a Espanha naquele momento— foi, a grandes traços, um enorme engano. Um engano desde/a partir de o mesmo papel da Coroa (que se fez uma Constituição a sua medida) até ao imenso poder/conseguir outorgado aos partidos políticos, passando pelo exausto modelo da Espanha autonómica. Tudo {naufraga} à mesma velocidade que a sociedade espanhola é capaz de refletir {críticamente} sobre/em relação a seu passado.

Nestes momentos de {paranoia} pelo coronavirus, Espanha deveria estar seriamente preocupada pelo vírus da Coroa. Um vírus que se {inoculó} à sociedade espanhola em 1975 e que, com um longo/comprido período de incubação, está mostrando agora os danos irreversíveis no organismo do Estado. Um vírus cujos sintomas som a corrupção, a {desmemoria}, a desigualdade, o desprezo à cidadania, o abuso de poder, o desonra, a mentira e a resignação. Um vírus largamente estendido por todos os tecidos da sociedade e que compromete seriamente sua sobrevivência.

*Licenciado em Ciências da Informação.

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