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El Periódico Extremadura | Quarta-Feira, 19 de septembro de 2018

Um nojo novo

DANIEL Salgado
02/01/2018

 

A palavra de 2017 é «{aporofobia}», segundo a {Fundéu}. Trata-se de um {neologismo} cuja tradução é «rejeição ao pobre» e cuja {acuñación} pertence à filósofa Adela Cortina, que explicou que a rejeição a imigrantes ou refugiados não é xenofobia nem racismo, já que não se produz pela sua condição de estrangeiros mas pela sua condição de pobres. Traduzido retamente, pois, trata-se de nojo. ¿Ou que é, se não, o racismo e a xenofobia? Nojo ao outro. Se até agora o era por sua raça ou por sua nacionalidade, agora o é também por sua pobreza. {Aporofobia}. O problema é que não é correto reconhecer que os pobres são repugnantes e produzem nojo. Melhor que produzam rejeição, que é eufemismo que irmã bem com termos como «medo» ou «desconfiança», entre outros, para conseguir assim uma definição decente.

{Desconozco} os critérios da {Fundéu} para escolher a palavra do ano, mas até agora parecia ser a popularidade. Aconteceu com «{escrache}» em 2013, com «selfi» em 2014, com «refugiado» em 2015 e com «populismo» em 2016. Foram populares por refletir fenómenos de repercussão social ou política. «{Aporofobia}», por outro lado, só/sozinho devem de conhecê-la aqueles que tenham lido os artigos jornalísticos de Cortina, que foi quem tem posto a palavra em circulação/trânsito. Mas o êxito de «{aporofobia}», ou seja, sua eleição como palavra do ano, não se explicaria sem seus dois padrinhos. Um, a RAE, que a tinha incorporado à versão on line de seu dicionário. E o outro, o Código Penal, que tipifica a {aporofobia} como uma circunstância agravante em caso de delito. Tenho aqui, portanto, um vocábulo para expressar o que se calhar não existia enquanto carecia de nome.

Enquanto se cria/acredite uma palavra, ela só se cheia de conteúdo e, o melhor, imediatamente lhe saem usuários. Assim, mais dum reconhecerá que tem sintomas de padecer {aporofobia} e poderá expressá-lo desinibidamente, sem cuidado de que lhe {afeen} o confessar que a pobreza lhe repugna: «Não, eu o que tenho é {aporofobia}». Certamente, nada alivia mais que saber que o que se sente tem nome e, porque o tem, existe. E já existe a {aporofobia}, esse nojo novo.

*Funcionário.

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