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El Periódico Extremadura | Domingo, 20 de outubro de 2019

Um museu para a caça

A caça é percebida/recebida, cada vez por mais pessoas, como uma atividade que desperta {reparos} morais

VÍCTOR Bermúdez
09/10/2019

 

Se acumulam as más notícias para o mundo da caça. Faz uns dias comentava a descida, um ano mais, da expedição de licenças na Extremadura. Uma tendência que se repete em todo o país e reflete o pouco envelhecimento das sociedades de caça. Poucos dias depois se denunciava a morte de quatro linces ibéricos a mãos de caçadores na região dos Montes de Toledo. E no domingo passado nos {enterábamos} do pré-acordo da Junta com um milionário madrileno para albergar em Olivença uma coleção de mais de mil animais {disecados} fruto de suas caçadas por toda a gente.

Esta última notícia gerou uma substanciosa polémica. Não só/sozinho pelo categoria dos animais caçados e {embalsamados} (muitos deles à beira de a extinção) ou o desenvoltura com que este empresário exibe na imprensa seus delitos fiscais, sua rançosa {filiación} franquista ou o obsceno mundo dos safaris de luxo dos que participa (nos que o último grito parece ser pagar por caçar animais de cores inusuais conseguidas por seleção genética). O mais surpreendente de tudo é o modo em que este senhor tem pretendido «deliberar a sua mulher e filhas» dos animais {disecados} que dominam seu {palacete}: atirando de vínculos pessoais –diz ser primo distante do presidente da Junta– e propondo uma fundação público-privada para sustentar um «museu de caça» com seu nome em Olivença. Sem dúvida, Berlanga tivesse facto/feito de tudo isto uma nova e {descacharrante} versão de A Espingarda Nacional.

A reação de tanta pessoas a este último caso, ou ao dos quatro linces mortos em Castela-A Mancha, põe sobre/em relação a o pano um assunto que, cedo ou tarde, o mundo cinegético terá que enfrentar. A caça é percebida/recebida, cada vez por mais pessoas, como uma atividade que desperta muito justificados {reparos} morais. Não faz falta ser {animalista} ou ambientalista para advertir que encurralar e disparar a animais pelo puro prazer de fazê-lo é, quando menos, questionável. Os animais não são pessoas, certamente. Mas também não são simples alvos telemóveis. Fazer-lhes sofrer até à morte por puro desporto começa a ser considerado pela imensa maioria como algo {moralmente} injustificável. A caça desportiva tem de procurar novas rotas e opções.

De outro lado, os argumentos que dão os defensores da caça para deliberar a este «desporto» de sua decadência são muito fracas. A atividade cinegética pode proporcionar, em certos contextos, alguns benefícios ambientais, sobretudo em relação à superpopulação ou extinção de certas espécies (um efeito provocado, a miúdo, pelos próprios caçadores, desejosos de introduzir certos animais –{véanse} as numerosas quintas cinegéticas, especialmente de {jabalíes}– e de eliminar predadores ou «{alimañas}» que lhes possam fazer a competência). Mas isto não é de nenhum modo {generalizable}. A proteção do ambiente está, hoje, em mãos da Administração e das leis, um de cujos objetivos é restaurar a capacidade de regeneração e regulação natural dos ecossistemas, como se faz nos espaços naturais que gozam da maior proteção.

O resto de argumentos a favor da caça são igualmente discutíveis, sobretudo se se os contrapõe à consideração moral que fazíamos antes. Nenhum benefício económico, tradição ou exercício de liberdade individual justifica que se faça sofrer desnecessariamente a animais tão anelantes de vida e sensíveis ao dor como nós. O respeito a outros seres vivos e a ideia de que estes não devem considerar-se como meros objetos para nosso entretenimento são princípios tão estabelecidos já na sociedade que mesmo fazem parte dos contidos {curriculares} que os docentes temos de transmitir em classe. Daí também a preocupação pelas campanhas de promoção da caça nas escolas.

Ninguém nega, em fim, que a milenária cultura da caça seja, como qualquer tradição, algo digno de conservar. Mas, principalmente, num museu. Um museu em que se mostre, desde uma perspectiva cientista e artística o rico e complexo universo da caça. Nada a ver, portanto, com a {casposa} coleção de múmias que pretende transferir-nos esse milionário {pre}-constitucional desde sua mansão da Moraleja.

*Professor de Filosofia.

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