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El Periódico Extremadura | Quinta-Feira, 12 de dezembro de 2019

Tempo, tempo

O tempo tem ido mudando de maneira que em cada época se tem vivido de forma diferente

AZAHARA Palomeque
22/07/2019

 

O tempo nunca é fútil, e sua conceção tem ido mudando de maneira que em cada época ou civilização se tem vivido de forma diferente, sem que tenhamos uma definição inamovível do que parece ser caprichinho dos deuses. Se, para os astecas, o tempo era uma sorte de espiral em movimento, se pode dizer que, a partir de {Hegel}, este decorre até diante, numa projeção infinita, queimando etapas, o que alguns têm vindo a denominar progresso. No entanto, essa noção tão otimista leva, pelo menos, umas décadas em crise: o tempo se {desvenda} para trás, joga a sua própria descomposição, engana e até assoma temeroso seu fim num mundo ameaçado pelo alterações climáticas.

Se algo une a três livros que tenho lido recentemente, ‘Não soube {Victor} Frankestein ser mãe’, do extremenho Francisco José Najarro Lanchazo, ‘O céu e a nada’, do catalão Toni Quero, e ‘Obsolescência programada’, do também extremenho Víctor Peña Dacosta, é essa perceção de tempo esgotado, ou uma visão histórica em que a voz lírica se dirime sujada sem decorrer numa direção concreta/concretiza que se {asemeje} minimamente ao futuro. Nos versos tanto/golo de Quero como de Peña e Najarro, se respira o sintoma geracional de quem perdeu a esperança e deambula entre a nostalgia e o desencanto, tratando de encontrar um sentido que jamais chega a manifestar-se. À margem de dita sintomatologia, cada autor é um universo em si mesmo.

Najarro elabora um livro que pode ler-se como um só/sozinho poema onde a continuidade se expressa na busca impossível do origem. {Tejiendo} um regresso melancólico até a figura da mãe, o poeta questiona o momento mesmo de seu nascimento, ao que seguem/continuam referências à infância que se encontram já desde o título e a foto que o autor escolhe para ilustrar sua biografia: ele de pequeno. As alusões corporais, abundantes enquanto que representam os sinais de existência biológica, umbilical, da que a todo o momento se dúvida, acabam por confluir na memória: «invento que lembrança que {lloré}». Se a memória é a única ferramenta, sempre enganosa, que se tem para reconstruir o perdido, esta se converte também na única certeza: temos de insistir em {recordarse} menino, voltar ao núcleo primeiro que é por sua vez a única pátria possível, {descorazonarse} «ao descobrir que sempre/ seremos estrangeiros».

Também trabalha a memória Quero, quem, no entanto, parece debater-se entre a {rememoración} duma adolescência marcada por traços temporários concretos –foi «nos noventa», «a droga cabia na gema de teus dedos»– e um desejo de ser recordado que luta por prevalecer face ao conhecimento de sua própria morte. O poeta se imagina a sim mesmo como «cadáver, devidamente ataviado» no ano 2025 e repete um motivo ao longo/comprido do poemário: a circularidade do tempo, que irremediavelmente leva a nenhuma parte. De facto, não é casual que a este fenómeno lhe acompanhe um {desmembramiento} das coordenadas espaciais. Viajando desde a antiga Grécia à Gran Vía atual, os mapas se voltam instáveis, as cidades são meras miragens em Google {maps}, ou um ‘não lugar’, como {asegurara} o antropólogo francês Marc Augé, desde o que assegurar: «me sinto um {oopart} abandonado/ numa dimensão paralela à minha».

SE CALHAR SEJA PEÑA quem, dos três, se {aferre} mais a um agora imediato desde o que criticar problemas sócio-políticos a base duma ironia esmagadora. Livro que roça o iconoclasta, nele a obsolescência evoca uma caducidade que afeta tanto/golo a humanos como a objetos, ao discurso político e à masa de cidadãos minados pelo desemprego e a ausência –postmoderna– de consciencializa coletiva. Assim, a memória em Peña funciona apenas como um objeto rejeitável anterior a Facebook, «o último que {aprendí} foi a tábua do nove», a linguagem como uma repetição absurda do já codificado por seu algoritmo, «gosto, me diverte», o {precariado} como uma experiência {darwinista} onde suas vítimas se transformam em «{mendigos} que arrancam/os olhos de seus cães./ E os afagam». Neste clima sem redenção possível, o poeta termina por afirmar ser o futuro mas convertido em o seu pai, isto é, em regressão.

Posto o tempo no paladar sem estômago, onde Peña diz {balconing}, Quero diz {Ícaro} e Najarro diz útero, todos apontam ao vazio. Um trio cuja leitura transforma a queda/redução em emblema geracional.

* Escritora

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