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El Periódico Extremadura | Domingo, 29 de março de 2020

Tempo de dragões

Poucas coisas teria tão temíveis que um animal capaz de lançar fogo pelas queixadas

CARE Santos
22/04/2019

 

Da lenda de São Jorge, o que me cai melhor é o dragão. A São Jorge me o imagino como um {guaperas} {repeinado} e presumido, um {perdonavidas} acostumado a conquistar qualquer coisa, incluída a princesa de revezo. Com ela ainda me {identifico} menos. Não correm bons tempos para {damiselas} em embaraços, sacrifícadas em aras da paz ou duma promessa rançosa. Sempre me caiu fatal que a única lixada do conto, uma vez tudo se resolve, tenha que ser a princesa. Ou se a come o dragão ou a casam com o {guaperas}. Nalgumas versões, em cima, o muito burro se permite o luxo de desprezá-la. Noutras, que prefiro, o valentão e aguerrido guerreiro fracassa e não consegue matar à besta. É um humilde sapateiro quem o faz, não com força nem guelras cavalheirosas, mas com engenho.

Exatamente isso é o que acontece numa das lendas fundadoras da cidade polaca de {Cracovia}, a do dragão de {Vawel}. É o humilde {Skuba} quem envenena à fera que tinha atemorizada à cidade oferecendole para comer uma ovelha preenche de {azufre}. Sua história é uma versão moderna do triunfo de David perante Goliat, mas o destino da princesa é igual de humilhante: o seu pai também a oferece em troca do favor, esta vez ao sapateiro.

Estamos numa semana muito {dragonesca}, e não só/sozinho por São Jorge. A maioria de nós ainda {conservamos} muito vivo na memória o lembrança do voo em dragão que se marcaram {Daenerys} {Targaryen} e John Snow no primeiro capítulo da última época de Jogo de tronos. Por certo que os três dragões da série têm nome: {Rhaegal}, {Viserion} e {Drogon}. Lhes temos visto crescer desde que nasceram do fogo em braços de a sua mãe, temos sofrido seus contratempos época a época e agora estamos consternados pelo papel e o destino de {Drogon} neste final da história (não digo mais, os fãs sabemos porque é que).

Como tantas coisas nos livros que deram pé à série e na série mesma, os três dragões afundam suas raízes na idade média. Foi nessa época quando surgiram a maioria das lendas com dragões que chegaram a nossos dias. Nessa altura se acreditava que existiam verdadeiramente e que tinha cavalheiros capazes de matá-los. A história de São Jorge ou a do dragão polaco se acreditavam autênticas.

Foi mais tarde quando se compreendeu que o valor destas histórias era simbólico e que o dragão significava o demónio, o mau ou o {paganismo}. O que faz o sapateiro {Skuba} ou o {guaperas} Jorge é dar motivos à pessoas para sua conversão ao cristianismo. E ao mesmo tempo São Jorge se voltou em toda Europa um santo jóquer que servia o mesmo para conquistar Jerusalém, fundar ordens religiosas militares, defender cidades ou proteger vacas e ovelhas.

O de voar num dragão também não é novo. Já o fazia {Bastián} {Baltasar} {Bux}, o jovem protagonista de A história interminável, o romance de Michael Ende, quando sulcava os céus a lombos de {Fújur}, o dragão branco da sorte que no filme -que deceção- parecia um {perrito}. Miúdo trauma, eu que o tinha imaginado como uma vaporosa {anguila} de {nácar}. Diria que aquele foi o primeiro voo em dragão de minha vida, do qual {guardo} lembranças muito vivos: o vento na face, o frio da noite e, naturalmente, a música de {Limahl} prolongando muito as sílabas do grupo sonora. O de John e {Daenerys} foi menos épico, sobretudo para ele. Nos fez perguntar-nos como de ásperas tem as crinas um dragão ou se não deveria alguém inventar as selas dragões. Claro que, segundo dizem meus filhos, tal artefacto já está inventado: {véase} o acidentado voo de Soluço e seu animal de estimação em Como treinar a teu dragão. Para que tais prodígios possam ver-se foi necessário que os dragões deixem de ser demoníacos e se convertam -como os orientais- em personagens bons. Toda uma conquista para umas criaturas sanguinárias que se caraterizam por ser capazes de expulsar fogo pela boca.

Fogo e sangue são, precisamente, os dois elementos que a casa {Targaryen} luz em seu escudo. Certamente, poucas coisas teria tão temíveis na antiguidade que um animal capaz de lançar fogo pelas queixadas. No poema de {Gilgamesh}, o texto literário mais antigo que se conhece, já se fala de algo parecido. O Apocalipse atualiza o horror. {Sant} Jordi o perpetua.

O sangue é uma metáfora. O sangue derramada da que {brotan} cor-de-rosa, a vida que segue/continua à morte. O sangue do monstro, que os {alquimistas} medievais utilizavam, fazendo-a passar por real, para suas poções {sanadoras}. Ainda hoje se utiliza em medicina e em tinturaria uma {resina} do mesmo nome, boa para deter hemorragias. E pode que forme também parte da base de certas tintas, como a denominada {Dragon} {Blood}, {fascinantemente} escura e brilhante. Este São Jorge levarei minha pena bem carregada com esta última. Não me digam que não é pertinente.

* Escritora

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