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El Periódico Extremadura | Quinta-Feira, 2 de abril de 2020

Sou da Geração Igualdade

SONIA González Fuentes
05/03/2020

 

{Hce} alguns dias, Javier, filho de um amigo, 11 anos e cacerenho, me contou que tinha uma professora feminista e não gostava de. Eu, surpreendida por uma frase tão contundente, lhe {pregunté} porque é que acreditava que era feminista e porque é que não gostava de. E sua resposta também foi muito clara: «porque sempre defende às raparigas». Esta frase inocente de Javier me fez pensar, porque recebemos mensagens por multiplos canais e de diferentes fontes que, mais que informar, {desinforman}. Por não falar das mensagens dalguns partidos políticos como Vox, que falam da «ideologia de género» como uma vertente ideológica radical que pretende discriminar aos homens.

Quisesse explicar-lhes porque é que eu sim sou feminista. Não sei se lhes convencerá minha explicação, mas gosto a discussão {razonada}, o debate público e espero que, pelo menos depois de/após ler o artigo, tenham mais elementos para valorizar, para interpretar e sobretudo para refletir. {Déjenme} começar comentando-lhes que me resulta curioso o estereótipo que por vezes se tem das mulheres que se declaram feministas. Por exemplo, eu. Sinto defraudar-lhes, mas adoro pintar-me os lábios, uso saltos e não chão prender minha roupa interior nas manifestações. Mas sim, sou mulher e acredito/acho na igualdade. E esta ideia faz com que seja feminista. Porque isto quer dizer feminismo: igualdade entre homens e mulheres, e {aspiro} a ter um mundo diferente e uma sociedade mais justa.

Pois verão vocês, o género e o sexo não som o mesmo. {Simone} de {Beauvoir}, uma {pensadora} francesa, escreveu um livro faz já várias décadas para demonstrar que «não se nasce mulher, se chega a sê-lo». O género é uma construção social que, baseando-se em as diferenças biológicas, atribui {roles} e funções diferenciadas e {jerarquizadas} a homens e mulheres. Portanto, sexo não é género e género não é sinónimo de mulher, mas faz referência à relação entre homens e mulheres. E estarão de acordo comigo que ditas relações estiveram e estão baseadas na dominação masculina. Promover a igualdade de género implica equilibrar estas relações de poder/conseguir, tanto/golo no âmbito público como no privado. Entendo que isto seja difícil de aceitar, sobretudo quando leva a questionar nossas próprias vidas: nossas relações laborais, familiares ou de casal/par. A resistência ao mudança faz difícil que {asumamos} novos códigos e conhecidos para interpretar a realidade.

É CERTO, no nosso país muitos debates já se superaram. Que as mulheres votem ou que trabalhem ou que vão à universidade e possam ser juízas ou cientistas. Mas ainda gera grande alvoroço que alguém diga de maneira provocante «{portavoza}», embora bem é certo que não o gera tanto/golo dizer «modisto», como nos recordava num artigo Laura {Freixas}. Cada qual que tire suas próprias conclusões. Estatísticas, relatórios, investigações e resoluções de diferentes instituições e organismos internacionais alertam duma involução no âmbito dos direitos da mulher e a igualdade de género a nível internacional. A luta pela igualdade não é uma luta contra os homens, não é uma guerra entre sexos, não {caigamos} em mensagens simplistas e populistas, envenenados, que tratam de tergiversar o projeto transformador que supõe o feminismo e no qual {cabemos} todas e todos. Mas no {trecho} já andado algumas coisas temos aprendido, nos demos conta, por exemplo, que somente com leis não basta; ajudam, mas não som suficientes para acabar com situações de desigualdade que som estruturais e que têm um enraizamento cultural; e que se se quer ter mais eficácia, as mulheres —a metade da população— deveríamos ter maior/velho presença nos âmbitos de tomada de decisão no mundo da política, das empresas, da academia ou da cultura, e dar início ações concretas e integrar a dimensão de género em todas os processos dos poderes públicos.

Oxalá algumas das reivindicações que hoy parecem {radicalesse} normalizem num futuro não muito distante. A agenda feminista tem ido tomando força porque as mulheres somos mais conscientes da nossa condição e dos efeitos diferenciados que qualquer ação tem em homens e em mulheres. E se as mulheres continuamos denunciando tetos de vidro, exploração, violência e discriminação é porque as desigualdades persistem.

Neste ano celebra-se o 25 aniversário da Declaração e Plataforma de Ação de Beijing ({Beijing+25}) que estabeleceu uma agenda ambiciosa e progressista a nível internacional para eliminar barreiras que impedem que as mulheres avancem. O balanço que se faz, 25 anos depois, é que a mudança real foi «desesperadamente lento» para a maioria das mulheres e as meninas a nível mundial. Por isso se tem lançado uma nova campanha que pretende aglutinar a diferentes gerações, ‘Geração Igualdade’, e que retomará a cadeira pendente pelos direitos da mulher e um futuro igualitário. Eu sou da Geração Igualdade.

*Médica em Ciências Políticas.

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