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El Periódico Extremadura | Domingo, 19 de agosto de 2018

Sexo e empatia

Decidir o que está bem e o que está mau devem fazê-lo as pessoas, não a «sociedade»

VÍCTOR Bermúdez
14/06/2018

 

Discutia estes dias com alguns amigos, e a propósito de certos artigos em imprensa, sobre/em relação a a {licitud} moral do chamado «sexo sem empatia», isto é, sobre/em relação a a prática sexual sem vínculos emotivos nem mais consideração pelo outro que os que ditam a lei, a mais elementar cortesia, ou a simples mecânica dos corpos. É o tipo de sexo que cabe esperar em relações esporádicas com desconhecidos, ou o que se exibe nos filmes porno. Pois bem, para alguns de meus amigos este tipo de relação sexual, e sempre que seja livremente escolhida, é perfeitamente lícita. Enquanto para outros, o sexo sem empatia é um caso paradigmático de «sexo machista», algo que jamais será escolhido por uma mulher (que não esteja já condicionada por uma conceção {patriarcal} da sexualidade) e que temos de rejeitar taxativamente. No extremo, alguns afirmam que o sexo sem empatia pode chegar a ser uma sorte de violação encoberta.

Este dilema é, em princípio, fácil de dissolver. No se dá uma falácia baseada no uso engano das palavras. «Sexo sem empatia» significa, para uns, «sexo puramente fisiológico acordado entre pessoas que só/sozinho procuram dar-se prazer», com o qual já há um grau/curso universitário de empatia mínima. E significa, para os outros, «sexo puramente fisiológico no qual só/sozinho obtém prazer um (o homem) e que é imposto à mulher, que o aceita por condicionamento cultural», com o que o problema de fundo não é a falta de empatia, mas a opressão da mulher. {Desecho} o equívoco, o debate poderia acabar-se aqui.

Ora bem, para além de este engano {late} um assunto importante, e que está detrás de algumas polémicas em torno de questões de género: ¿deve estar condicionada a moral privada pela moral pública? Ou, de modo mais concreto: ¿é a moral sexual um assunto estritamente pessoal, ou mais bem um assunto que, para além de o legal, tem de estar socialmente regulado, por exemplo, através da educação em certos modelos de sexualidade e a censura pública de outros?

Estas perguntas admitem dois respostas, uma ética e outra política. A primeira se reduz a admitir que a moral é, por definição, um assunto pessoal. Decidir o que está bem e mau é algo que devem fazer as pessoas, não a «sociedade» que, salvo figuradamente, não é nenhum sujeito moral. Mesmo quando se fala duma «moral social» se fala de sistemas morais escolhidos por pessoas. Sistemas que podem condicionar as decisões individuais, certamente, mas que não podem determiná-las, a não ser negando nossa condição de seres livres (e, portanto, de seres morais).

Quanto à resposta política consiste em {recordar} que em democracia, e para além da moral mínima que encarna a lei, não cabe impor modelos de conduta excludentes, pelo que não se deve educar ao cidadão unicamente neste ou aquele, por muito apropriado que nos pareça a nós, mas na autonomia moral para que seja ele mesmo quem escolha entre eles. Nisto consiste a educação ética –que não é o mesmo que o doutrinamento moral–.

Aplicando tudo isto ao dilema do princípio diríamos que se dois ou mais pessoas adultas acordam livremente praticar «sexo sem empatia» isto tem de resultar {moralmente} lícito. Esta opção não carece de dificuldades (¿que acontece, por exemplo, se duas pessoas decidem livremente maltratar-se –como nas relações {sado}-masoquistas–, ou até acabar um com a vida do outro –se deram casos–? ¿Deve fazer um com sua sexualidade ou seu corpo o que queira, sem limite algum?), mas parece, com tudo, a melhor.

De outro lado, se acreditamos que certas pessoas –as mulheres– não estão em condições (ainda) de poder/conseguir escolher sem que sua eleição se confunda com o «submissão voluntária» a modos de sexualidade que as {cosifican} e desconsideram, o que temos de fazer é acabar com esse estado de opressão que lhes impede decidir, e não com o «sexo sem empatia» praticado livremente por quem deseje. Não é questão, em suma, de censurar certos modelos de sexualidade, mas de fomentar a liberdade de aqueles que têm de valorizá-los {moralmente}. Outra opção conduz ao puritanismo sexual e o {paternalismo} moral, dois traços típicos do totalitarismo.

*Professor de Filosofia.

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