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El Periódico Extremadura | Domingo, 24 de junho de 2018

Ser e parecer

O importante não é tanto/golo obcecar-se pela imagem como obcecar-se pela ideologia

ENRIQUE Pérez Romero
12/06/2018

 

Parece ser que foi Cayo Julio César quem disse que «a mulher do César, para além de ser honesta, deve parecerlo». Esta frase ficou para a história como o paradigma da relação entre realidade e aparência e, mais nomeadamente, da necessidade de {acompasar} o que um é com o que um parece que é.

Se calhar não está suficientemente escrita a história social da política, isto é, o relato de como têm ido evoluindo as formas políticas, para além de as ideologias e das organizações sociais. Se esta história estivesse escrita com amplitude e rigor certamente poderíamos comprovar que a evolução das ideias de «ser» e «parecer» têm muito que ver com a evolução ética das sociedades.

Não contar com essa história social da política nos obriga a partir de nossas próprias vivências que, por outro lado, não são menos valiosas que o estudo da história. Portanto, a ninguém se lhe escapa, por exemplo, que se antes era um motivo de desprestígio «passar-se de pronto/inteligente/esperto» (isto é, parecer mais pronto/inteligente/esperto do que se era) agora, para sobreviver, é quase imprescindível «fazer-se o parvo» (isto é, parecer mais parvo do que se é).

Isto denota a evolução intelectual e cultural da sociedade no último meio século, e põe em cima da mesa uma das questões chave que está determinando a política contemporânea. Os líderes que têm dominado e dominam a política (o melhor exemplo é se calhar Mariano Rajoy) passaram sempre por pessoas medíocres que na verdade eram inteligentes, mas que tiveram que parecer parvas para chegar onde estavam. A sociedade agora se sente agredida pelas pessoas inteligentes, e aqueles que têm tido êxito foram aquelas que nunca o pareceram.

Outra coisa que vende muito é a humildade. Embora seja aparente, isso dá igual, mas a sociedade não suporta às pessoas seguras de sim mesmas, que sabem o que querem e o que não querem, que pisam forte, que escolhem às pessoas válidas e se afastam das que não o são; a sociedade espanhola contemporânea prefere pessoas débeis, que desçam a cabeça, que pareça que a toda a gente consideram e que põem {ojitos} de submissão perante as perguntas dos jornalistas.

O melhor exemplo de isso é Pablo Iglesias, cuja soberba é se calhar seu principal defeito, advertido por todos os assessores, e trata de ocultá-la baixo/sob/debaixo de uma falsa modéstia que ninguém se acredita, curvando as sobrancelhas artificialmente e verbalizando continuamente a palavra «humildade» para tratar de compensar o que sua linguagem corporal denuncia sem necessidade de que abra a boca.

Mas o principal problema de Iglesias não é que seja uma pessoa tão segura de sim mesma que pode gerar antipatia, mas tenta parecer o que não é, e isso é muito pior que qualquer outra coisa. É possível que a sociedade atual não suporte, por sua própria fragilidade, às pessoas seguras de sim mesmas, mas ainda é pior falsear o que {eres}.

Dito por outras palavras, e resumindo: em política sempre há uma distância entre o que parece e o que é, sendo o ideal que essa distância se encurte o mais possível. Por outro lado, a sociedade atual tem imposto aparências contrárias às de antanho: se antes era veneno para as urnas parecer parvo e parecer débil, agora resulta perigoso parecer pronto/inteligente/esperto e parecer forte. A mistura de ambas questões obriga à cidadania a perguntar-se permanentemente sobre/em relação a aquilo que está votando, no que diz respeito aos lideranças dos grandes partidos.

O empenho dos assessores de imagem e gurus da comunicação política por fazer parecer aos líderes aquilo que não são é um tentativa sempre frustrado, pois cada pessoa transmite o que é de forma inevitável mediante a comunicação não verbal. Por isso o importante não é tanto/golo obcecar-se pela imagem como obcecar-se pela ideologia, que é o que, no fim do caminho, determina a boa política da má, seja política da nova ou política da velha.

E é aí, na ideologia, na ética, na gestão, na política com maiúsculas, onde a aparência não pode sustentarse durante demasiado tempo. É a realidade a que frota como a cortiça. E esta questão vai ser determinante na política espanhola dos dois próximos anos.

*Licenciado em Ciências da Informação.

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