Menú

El Periódico Extremadura | Segunda-Feira, 17 de fevereiro de 2020

Porto Rico

AZAHARA Palomeque
07/01/2019

 

Tive a sorte de passar os últimos dias de 2018 em Porto Rico, um país do qual faz muito tempo somente conhecia sua condição de perda, porque assim nos explicaram o temido desastre de 1898, o buraco identitário em que se afundou uma Espanha condenada à decadência. Cuba, Porto Rico e Filipinas. As últimas {colonias}. Se perderam. Morreu o Império no qual nunca se punha o sol. Onde ficassem seus territórios, a responsabilidade histórica da {metrópolis}, as vicissitudes políticas e económicas das filhas que engendrou a infame mãe pátria pouco/bocado importaria já, até que uma pisa conscienciosamente um desses pátios filiales e sente uma necessidade de responder a cavalo entre a {diacrónica} ingenuidade e a consciencializa crítica.

Circular por Porto Rico é uma experiência fantasmagórica para uma espanhola imigrante em Estados Unidos. Uma inventa correspondências com o conhecido e tenta elucidar a amálgama de elementos que acredita nacionais. Por suas estradas {parcheadas} passam veículos {mastodónticos} que se detêm em centros comerciais, {Burger} {Kings}, supermercados e cidades espalhadas entre montanhas e {recovecos} do paisagem; no velho São Juan, a perceção de habitar um núcleo familiar apenas a omitem o movimentação turística e as tonalidades das fachadas. A propósito, {comento}: «isto é meu povo/vila mas com cores», enquanto passeio por seus {callejas} empedradas. Na autoestrada, convivem sinais que indicam as distâncias em quilómetros e millas, suas gentes sabem medir a temperatura em {fahrenheit} e {celsius}, o inglês se adapta a um espanhol que é preponderante e resistente, único. Em Porto Rico parecem unir-se os traços de um exílio em toda a linha; não obstante, se para mim a confluência de mundos se deve ao deslocação física sobre/em relação a o mapa, a minha vida {gringa} em contínuo choque com a memória do origem, na ilha os mundos flutuam simultâneos. Uma festa em {Bayamón} me dá a chave: entre taças, vários amigos não param de vituperar a constante falta de autonomia política. A cidadania estado-unidense, concedida em 1917, não faz mas acentuar a estraneidade, como dissesse o escritor Eduardo Lalo. Dita estraneidade é o sintoma duma colonizações perpétua que começou em 1493 –a data a enuncia, orgulhoso, o táxi que me recolhe/expressa do aeroporto– e chega até nossos dias.

A história recente de Porto Rico, oficialmente um Estado Livre Associado, atado e bem atado ao congresso estado-unidense, sem direito ao voto e controlado por uma Junta Fiscal que {traduzco} como Troika caraíba e exige o pagamento da dívida pública em troca de cortes orçamentais sobre/em relação a serviços essenciais –entre os que se encontra o acesso à universidade e as pensões–, está ligada intimamente não somente ao passado imperialista espanhol, mas também ao desconhecimento e a arrogância com que a miúdo nos {referimos} a América Latina, essa terra civilizada graças à ação opressiva que ainda perdura na língua e na cultura. Desde a {conceptualización} generalizada de outros países hispano falantes como «sul-americanos», até à incapacidade quase congênita de reconhecer nas diferentes repúblicas latino-americanas uma soberanía desligada da chamada matriz peninsular, se estende a traçar pontes de cariz subjugante como uma forma de ressuscitar o velho sol omnipresente, satisfazendo vetustos egos e invocanco anacrónicos relatos que pressupõem uma hegemonia {inasible}, sonhada até hoje. No entanto, no caso de Porto Rico, o espectro da hispanidade colide com Estados Unidos provocando a confusão mais daninha, {aderezada} com ignorância. Quando, por ocasião do VII Congresso Internacional da Língua Espanhola em 2016, o rei Felipe VI e o diretor do Instituto/liceu Cervantes Víctor García de la Concha enfatizaram o carácter estado-unidense da nação {boricua}, maravilhados perante uma suposta vinculação sempiterna com Espanha, poucos puderam ver a agressão contida em tais afirmações. Duma violência a outro nível mas igual de {lacerante} foi a gestão da catástrofe que aterrou em setembro de 2017 em forma de furacão María, cujos mortos passaram de contabilizar-se por dezenas nas primeiras semanas a elevar-se a 4.645 segundo um estudo de Harvard. Parece mentira, mas há algo cadavérico também em nossa {inopia}, no desastre conquistador e na perda dominadora de cada dia que, como o pão, não faltam numa mesa de {Nochevieja}.

*Escritora.

As notícias mais...