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El Periódico Extremadura | Quinta-Feira, 2 de abril de 2020

{Pandémica} e celeste

MAR Gómez Fornés
14/03/2020

 

Escrever desde/a partir de os {confines} duma quarto. Escrever desde/a partir de este isolacionismo de país ao que nos temos visto destinados. Isto fazemos, ser os mesmos de ontem, num mundo que já não é o mesmo; pensar e escrever como ontem, quando já nada é como ontem. Um beijo teu bastará para sucumbir.

Um beijo teu, meu, nosso, leva implícito o vírus da solidariedade. Alguém tem descrito a este coronavirus como o vírus da {filantropía}, o companheirismo ou a irmandade. Não é de estranhar portanto que para enfrentar este repto/objetivo coletivo, nos tenhamos dotado de mandamentos, algo parecidos -se me permitem-, aos contidos nas Tábuas de Moisés: {Cuidaos} os uns aos outros; {honrarás} aos maiores/ancianidade; não {saldrás} à rua; não {besarás} a teus pais e avós; não {contagiarás}...

Por meu culpa, por teu culpa, por nossa grande culpa.

Um lavado de mãos bastará para salvar-nos. Amém.

Escrevo esta coluna {pandémica} após quatro dias {enclaustrada} em minha própria casa de forma voluntária, de maneira que peço desculpas se {desbarro} nalgum linha. Esta severa medida que chegou na quinta-feira a Extremadura, leva dias implantada num Madrid convertido em {Harmaguedón}. Sim, com «H», tal qual aparece em minha Bíblia didática. {Harmaguedón} era o lugar onde se reuniam todos os reis da terra para o combate do grande dia do Senhor; parece ser que o nome de {Harmaguedón}, alude a uma montanha chamada {Meguido}, ({Har} {Meguido} em hebreu) cidade {cananea} situada ao pé do Monte {Carmelo}, onde por certo se deliberaram terríveis batalhas.

Como o concentração sugerida pelo governo e as autoridades sanitárias se faz eterno, disponho de tempo para ler sobre/em relação a catástrofes, por isso me adentro em {Harmaguedón}, -não confundir com o filme {Armaguedón}- e {compruebo} que aparece uma só vez na Bíblia, num único versículo, um linha nada mais. UM. Seguro que já imaginam onde. Exato, não podia ser mais que no Livro do Apocalipse 16,16. Um versículo, um, como esses minúsculos versos que vão dando forma ao poema. Uma só menção mas apocalíptica, do lugar onde acontecerá o fim do mundo.

E não é convocar ao medo, é a desolação que se lhe mete a uma pelo corpo ao ver transferidas cidades como Madrid, pelo silêncio, a paralisia, o bloqueio... o vazio.

De repente a {megalópolis}, convertida em Espanha vazia ou pior ainda, escondida. Se assoma uma à janela e vê a seus vizinhos/moradores desenhando domingos entre {visillos}. É que por alguma estranha razão, certas solidões cheiram a domingo à tarde, a carro/automóvel que se afasta, a comércio fechado, a vozes de meninos muito distantes, como se os seus pais estivessem apoiando'ls até amanhã. Certas solidões, como as que trazem os vírus, as pestes e pandemias, soam a tambor de madrugada, a parques sem avós, a beijos afogados, a {retumbo} de trompete e homens enjaulados.

Continuo/sigo lendo o Apocalipse onde não tudo é {acabamiento}; no capítulo 21 se conta que dos doze pilares sobre/em relação a os que se estabelecia a cidade celeste de Jerusalém, o sexto pilar, estava facto/feito a base de {cornalina}. ¡{Zas}! E me {zumban} os ouvidos. ¡{Cor}-{na}-li-{na}! Sim, se parece à palavra na qual estão a pensar.

Nessa altura, da Bíblia me vou correndo ao dicionário da RAE que define assim {cornalina}: ágata de cor de sangue. E me entra um suor frio por tudo o corpo segundo as casualidades que, se uma se empenha, acaba encontrando nos livros.

Mas atentos, lhes vou a revelar a maior/velho das coincidências: {Pandémica} e celeste é um impactante poema de Jaime Gil de Biedma que diz «{Imaginate} que tu e eu muito tarde já na noite, falamos homem a homem, finalmente...» Assim é como imagino eu a Pedro e a Pablo na noite de domingo passado, falando já muito tarde, de pandemias e estratégias.

*Jornalista.

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