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El Periódico Extremadura | Sexta-Feira, 21 de septembro de 2018

Nova Idade Média

MARIO Martín Gijón
02/06/2018

 

Em 1924, se convertia num {best}-{seller} em toda Europa o livro Uma Nova Idade Média, de {Nikolai} {Berdiaev}, onde este exilado russo observava que «a fé em todas as políticas está gastada» e profetizava que as pessoas iria deixando de identificar-se com emblemas políticos e preferiria agrupar-se «baixo/sob/debaixo de signos económicos de um interesse/juro imediato» de modo que «as antigas castas e classes desaparecerão, surgindo em seu lugar grupos profissionais», como nos associações medievais. Como {Spengler}, previa uma época de triunfo da força e o {cesarismo}, de líderes aclamados por instinto.

Quase cem anos depois, em seu ensaio A flecha (sem branco) da história, o filósofo Manuel Cruz vislumbra em nossa época indícios duma nova Idade Média, baseando-se em o descrédito da ideia de progresso e de mudança social. Também o professor José María Naharro-Calderón fala de um «perverso {neofeudalismo} globalizado» no qual «a riqueza do um por cento cresce {exponencialmente} face ao empobrecimento do resto». Assumido o neoliberalismo como ordem/disposição natural das coisas, de igual modo que se assumia que os reis o eram por direito divino, o {catecismo} económico teria assumido a função de «a religião no Medievo, que convertia em suportável uma vida de exploração e injustiça a base de considerá-la, toda ela, como um transitório vale de lágrimas».

Se a Idade Moderna, desde o Renascimento, viu o auge do indivíduo e, após a Revolução francesa, se assumiu a justiça como um objetivo, hoje em dia vivemos submetidos ao imperativo da competitividade (recentemente se nos suspendeu a nossa região como a única cuja «competitividade» não aumentou: terá que ficar sem recreio ou fazer cem flexões como castigo) que não é mas {darwinismo} social no qual os grandes magnatas ocupam o lugar dos condes ou duques, até com direito de pernada, como presumia Trump.

À pessoas se lhe disse que falar de camadas sociais é algo antigo e tresnoitado, e o moderno é matar-se por uma bandeira e seguir/continuar cegamente a um caudilho, se chame Trump, Rajoy ou {Puigdemont}. Aí seguem/continuam os árabes dos que temos de defender-se, embora venham como refugiados {desvalidos} e não {cimitarra} em mão, aí seguem/continuam os {persas} que agora se chamam iranianos ou o perigo amarelo de Coreia do Norte. Sem esquecer-nos dos {cosacos}, digo os russos, aos que temos de manter a raia em suas estepes. Não estranha que as pessoas goste de séries medievais como Jogo de tronos ou A catedral do mar, chame a seus filhos Rodrigo, {Jimena} ou Gonzalo, e se deixe até contar o conto duma infanta que aos doze anos já merecia o {Toisón} de Ouro.

Lembrança o escândalo duma amiga perante aquela promessa de {François} {Hollande} de um imposto do 75% para os multimilionários, à que renunciou sem muito esforço. Até 1973, em Estados Unidos os milionários pagavam um 90% de impostos: hoje pagam menos de 20%, e menos pagarão ainda após a reforma de Trump. Nesse mesmo país, a diferença média/meia entre os ordenados mais altos e mais baixos nas empresas se tem multiplicado por dez. Mas não nos {engañemos}: a desigualdade não escandaliza já a quase ninguém, como também não escandalizavam faz umas décadas o antissemitismo ou o racismo, pois o que se vê a todas horas deixa de estranhar. {Aceptemos} ser servos da {gleba}, e que não se nos aconteça revoltar-nos, ou tudo irá a pior.

*Escritor.

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