+
Accede a tu cuenta

 

O accede con tus datos de Usuario El Periódico Extremadura:

Recordarme

Puedes recuperar tu contraseña o registrarte

 
 
 

Noites escuras

 

FRANCISCO Rodríguez Criado
13/05/2020

Não podemos comparar a crise sociosanitária gerada pela {covid}-19 com a mal chamada peste espanhola, que se recebeu a vida de 40 milhões de pessoas. Como costuma dizer-se, as comparações som odiosas, e neste caso seriam, além disso, injustas. Já {quisieran} os que padeceram a gripe de 18 estar em nossa situação, sobrevivendo confinados com relativa comodidade enquanto vemos séries em Netflix, {leemos} os livros que levavam meses descansando na {mesita} de noite ou continuamos turmas de yoga ou de viola em {YouTube}.

Não podemos comparar-nos com situações que foram estatisticamente falando muito mais trágicas, mas sim podemos comparar-nos com a sociedade que éramos a princípios de Março, quando podíamos sair ao campo, viajar a nossa segunda residência, ir ao ginásio ou fazer {footing} sem medo a que a polícia nos multasse ou que mesmo nos detivesse por delito recorrente.

O mundo ocidental não está acostumado a que as pandemias nos separem dessa zona de conforto na qual, em maior/velho ou menor medida, vivíamos, essa {mullida} {atalaya} tecnológica desde/a partir de a que contemplávamos as crise sanitárias como algo alheio a nosso mundo {inmaculado}.

Me tem tocado sofrer esta pandemia no bairro mais povoado da cidade espanhola mais castigada pelo coronavirus. Acredito/acho que nunca esquecerei essa estampa, repetida durante semanas, de um bairro antanho vitalista, {reconvertido} num ente fantasma, com apenas uns quantos zombies pela rua apetrechados com máscaras e luvas, dispostos a fazer a heroica compra do dia. Mas se algo me tem impactado som essas noites escuras, quando tirava à cadela, e tudo o que se ouvia era um silêncio tragicómico e {ominoso} de conto de {Allan} {Poe}, tão somente interrompido, cada dois minutos, pelas sereias das ambulâncias e os carros/automóveis de polícia.

O mundo, tal como o conhecíamos, tem morto. Agora nos toca ressuscitarlo, e a nós com ele.

*Escritor.