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El Periódico Extremadura | Segunda-Feira, 21 de maio de 2018

A insuportável {levedad}

Se não fora pela correção política que só/sozinho esconde cobardia, ¿seríamos Espanha?

ENRIQUE Pérez Romero
13/02/2018

 

Se não fora porque estamos em 2018 e não em 1918, o uso da palavra «{portavoza}» poderia considerar-se uma audaz artimanha {discursiva} para alentar um debate vanguardista. Se não fora porque é um atentado linguístico quando é mais necessário que nunca o rigor no linguagem, poderia ter-se em conta a proposta. Se calhar se semelhante banalidade fizesse justiça às dezenas de mulheres assassinadas cada ano por violência machista, poderíamos considerá-lo algo mais que a insuportável {levedad} duma má porta-voz.

Se não fora porque está custando milhões ao erário público, a {astracanada} catalã poderia fazer-nos rir de vez em quando. Poderia ser até divertido que um senhor de {Gerona} queira investir-se por teleconferência para presidir a uma região de sete milhões de pessoas desde a cidade que provocou a rendição de {Napoleón}, se não fora porque é o facto/feito mais grave desde o golpe de {Tejero}. Poderia abrir-se um debate profundo sobre/em relação a a república federal, mas a insuportável {levedad} de um independentismo infantil e caprichoso o vai a impedir.

Se não fora porque subjaz a ideia de beneficiar a sim mesmos como partidos, seria louvável o tentativa de Podemos e Ciudadanos por reformar uma lei eleitoral que necessita ser reformada. Seria de bater palmas o entusiasmo de Ribeiro e Igrejas por {parlamentar} para regenerar a democracia, se não fora porque puderam {parlamentar} junto a Pedro Sánchez a princípios de 2016 para que o PP não governasse; isso sim tivesse sido regenerar, mas a ambos lhes vinha bem a continuidade de Rajoy. Mesmo poderia aceitar-se o tentativa de deixar ao PP fora de uma negociação tão importante como a da lei eleitoral, se não fora pela insuportável {levedad} de conseguir uns quantos euros mais a conta duns quantos assentos parlamentares mais.

Se não fora porque as condenações de quarenta anos que já há em Espanha supõem uma prisão perpetua de facto, o eufemismo «pena permanente {revisable}» poderia servir para envolver em papel de presente a legislação penal mais dura de Europa. Se não fora porque Espanha é um dos países menos violentos do mundo, teria algum sentido aproximar nosso sistema penal ao dos países mais violentos do mundo. Se calhar poderia estar de acordo em endurecer as penas para alguns delitos verdadeiramente inumanos, se não fora porque se quer mudar a lei ao ritmo da insuportável {levedad} da atualidade informativa.

Se não fora porque é impossível evitar o calafrío ao ler que um menino de nove anos foi violado {colectivamente} por um grupo de companheiros na escola durante o recreio, poderíamos passar pela notícia como se fora uma notícia mais. Poderíamos fazer como que os pais são todos maravilhosos, como que os centros educativos funcionam perfeitamente e como que as instituições cumprem com suas obrigações, se não fora porque a esta hora há um menino de nove anos (um mais) ferido para toda sua vida. Seria esperançoso pensar que esta nova ferida incurável servirá de algo, se não fora pela insuportável {levedad} duma sociedade dormida nos {laureles} de seu frágil bem-estar enquanto em seus alicerces germina o ovo da cobra.

Se não fora pela insuportável {levedad} duma sociedade mimada que não está sabendo fazer frente a uma de seus piores crise, este momento histórico poderia servir para sair fortalecidos. Se calhar se não fora pela insuportável {levedad} duma sociedade adormecida junto às ecrãs do futebol, do bisbilhotice e do «{reality}», enquanto uns poucos manejam comodamente a verdadeira «{reality}», caberia pensar que a revolução pendente é questão de tempo. Não tenho nenhuma dúvida de que se não fora pela comodidade duma classe média vinda a menos que se tenta a roupa com tal de não perder mais do que já perdeu, este país se converteria a curto prazo num dos mais pujantes do mundo. Se não fora pela insuportável {levedad} das conversações nas barras dos bares que solucionam todos os problemas, das falsas fotos felizes em redes sociais que tranquilizam consciências e da correção política que só/sozinho esconde cobardia, ¿seríamos Espanha? Sim, sem dúvida. Mas uma Espanha menos {insoportablemente} leve. Uma Espanha melhor.

*Licenciado em Ciências da Informação.

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