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El Periódico Extremadura | Sexta-Feira, 28 de fevereiro de 2020

O fecho do ciclo do 15-M

A pressão da cidadania e a fragmentação da direita fizeram possível fechá-lo

ENRIQUE Pérez Romero
14/01/2020

 

Embora esta ideia tardará em chegar a a cidadania, o Governo recém conformado marcará uma dobradiça na história política espanhola. Não porque seja um Governo de coalizão nem porque esteja presidido por Pedro Sánchez nem porque chegue após cinco eleições consecutivas ganhadas pelo PSOE. O será porque nele tem entrado Unidas Podemos.

Como já tenho expressado em artigos anteriores, o acontecimento político mais relevante/preponderante em Espanha desde/a partir de 1975 foi o 15-M. Aquele movimento social de potencia extraordinária marcou um antes e um depois indiscutível, quebrou o sistema de partidos e cruzou o {Rubicón} que a geração da Transição nunca quis ou pôde cruzar.

A vitalidade e a força do 15-M não tornaram-se num movimento {insurreccional} —o foi ao início— porque teve um grupo de pessoas que fundaram Podemos menos de três anos depois. Podemos —que logo recolheu a toda a esquerda à esquerda do PSOE— tornou-se na representação do 15-M nas instituições.

Não é em vão, durante o último debate de investidura, no passado 4 de Janeiro, Pablo Iglesias terminou seu discurso desde/a partir de a tribuna do Congresso dos Deputados dirigindo-se assim a Pedro Sánchez: «Sim se pode, adiante presidente». «Sim se pode» foi um dos motes do 15-M, proveniente de outros movimentos sociais e, em última instância, do mote de campanha de Barack Obama para as eleições estado-unidenses de 2008 que, na verdade, significava literalmente «Sim, podemos» («{Yes}, {We} Cão»).

Desde que Podemos irrompeu no sistema político espanhol, em representação literal duma grande maioria do 15-M e em representação simbólica de tudo o movimento social que arrastava, nasceu um novo ciclo político em Espanha que segue/continua aberto desde/a partir de 2011. Podemos conseguiu 1.253.837 votos nas eleições europeias de 2014 e 5.212.711 nas eleições legislativas de 2015 o que, acrescentando os votos de IU (926.783) fez que a esquerda à esquerda do PSOE conseguisse 6.139.494 votos, face aos 5.545.315 do jogo/partido liderado já nessa altura por Pedro Sánchez.

Este «{sorpasso}» algo mais que simbólico, levou a Podemos e IU —aconselhados pelo {ínclito} Iván Redondo, agora chefe de gabinete de Sánchez— a {coaligarse} para as eleições de 2016, o que, como {profeticé} neste mesmo espaço umas semanas antes do domingo eleitoral, provocou que Unidos Podemos (Podemos {+} IU) perdesse em tão somente seis meses 1.051.956 votos, ficando 356.308 detrás do PSOE.

Este empate treinador na esquerda o resolveram as velhas glórias do PSOE unidas a alguns de seus {barones} regionais, aqueles que, em plenário/pleno ciclo político do 15-M, obrigaram a Sánchez a «{podemizarse}». Aquela campanha de primárias na qual tudo o aparelho do PSOE apoiava a Díaz e Sánchez se ergueu em A Internacional, só/sozinho podia acabar com a vitória do segundo, como assim foi, e essa vitória só/sozinho podia terminar com o PSOE recuperando votos de Unidas Podemos. Isso aconteceu nas primeiras gerais de 2019, quando o PSOE recuperou 2.069.296 e o jogo/partido de Iglesias perdeu 1.162.572. As segundas eleições de 2019 foram um tentativa de Sánchez de comprovar até onde podia chegar a recuperação, mas encontrou-se com seu teto, perdendo 760.159 votos.

Perante esta situação, com Unidas Podemos descendo progressivamente e o PSOE perdendo parte do recuperado, aos dois atores políticos só/sozinho lhes ficava uma opção: pactuar. A Iglesias porque não tinha mais margem de manobra e a Sánchez porque a outra opção, negociar com a direita, lhe teria suposto fazer-se uma emenda à totalidade de seu «{podemización}» desde/a partir de 2016.

Assim as coisas, a pressão da cidadania nos processos eleitorais e —muito importante— a fragmentação da direita em três partidos, fizeram possível fechar por fim o ciclo do 15-M: que a esquerda espanhola governe baixo/sob/debaixo de a influencia do «Sim se pode». Por isso 2020 começa com um Governo que será um antes e um depois, porque só/sozinho poderá responder dois coisas: «Sim se pode» ou «Não se pode». E dessa resposta dependerá por completo o futuro de toda a esquerda espanhola e do nosso sistema político. O resultado, dadas as circunstâncias dos pactos, já se sabe, mas o Governo e sua gestão terão a última palavra.

*Licenciado em Ciências da Informação.

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