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El Periódico Extremadura | Quarta-Feira, 14 de novembro de 2018

Do Idealista e outras drogas

Viver a vida com consciência e conhecimento é viver mais

VÍCTOR Bermúdez
06/06/2018

 

Agora que é época de livros se me vem à cabeça o divertido comentário que me fez uma aluna numa sessão de rádio em que {discutíamos} sobre/em relação a drogas. «A ver –nos disse–, postos a falar de agarrados todos conhecemos o caso de Dom Idealista, que era adicto aos livros, e de tanto/golo ler e ler se voltou louco e começou a ser um problema para todos...». Conclusão de minha aluna: toda dependencia é má, e tudo adicto é um toxicodependente. ¿É isto certo? ¿Não teria, o que é bom, ser precisamente {adictivo}? ¿É isso de ler como possessos –as aventuras do possesso {hidalgo} manchego, por exemplo– um argumento a favor, ou contra das drogas?

Não é coisa fácil falar com os jovens sobre/em relação a drogas. Sobretudo se uma pessoa pretende convencer-los e não pregar-los. Diabolizá-las não serve, certamente, de nada. Os jovens sabem que as paixões proibidas nunca são tão más como seus censores as pintam (se fossem tão más não faria falta proibi-las com tanto/golo {ahínco}). Além disso, boa parte de seus ídolos, ou da pessoas mais «giro» que conhecem, as consomem. Algo terão, pois, essas ditosas drogas.

As drogas têm contraindicações e perigosos efeitos secundários, certo, mas também tentam estados psicológicos gratificantes (descontração, euforia, alegria, desinibição e, às vezes, uma espécie de abandono ou «liberadora» perda de consciencializa). Não podemos começar negando isto. Se queremos evitar que os jovens incorram em maus hábitos, e dado que tomar ou não tomar drogas é uma decisão pessoal (e não uma patologia nem uma tendência irrefreável ao mau), temos que começar por explicar-lhes porque é que são tão más coisas que parecem tão boas. E não é nada fácil.

Numa sociedade, além disso, como esta, na qual o bem-estar psiquiátrico e a diversão (entendida como um estado de dispersão e evasão permanente) se concebem como bens supremos, a dependencia de drogas parece uma conduta coerente, mesmo ao custo de encurtar a vida. ¿Há modelos morais alternativos a esta sorte de {hedonismo} {fast}-{food} que se vende, por defeito, aos jovens (e não tão jovens)?

A razão pela que a mim me têm repugnado sempre a maioria das drogas é muito simples: te aturdem e te privam de consciencializa. E nunca tenho especialista/conhecedor que interesse/juro tem voltar-se um mais parvo do que é. É certo que certo grau/curso universitário de embriaguez pode ser «produtivo». Mas {desengáñense}, só/sozinho nalguns campos –como a arte se calhar–, em ocasiões muito contadas, e em pessoas muito concretas. Na imensa maioria dos casos o efeito «criativo» das drogas não tem nada a ver com a divina inspiração dos poetas –mas com a sova que te dá um tipo qualquer desprovido de tudo pudor–.

Se tivesse que defender um modelo de vida imune à tentação das drogas, o faria elogiando justo o efeito contrário ao seu: o estado de lucidez. {Proust} dizia que não há vida mais plena que aquela que se revive através da palavra, a memória e a reflexão. Viver de forma espontânea e irreflexivo –como prometem as mais das drogas– é a forma mais pobre –não a mais plena– de viver. A própria a um animal. Ou a um escravo. Por isso é, também, a mais cara por aqueles que sofrem do afã de dominar aos demais. Recordem, por certo, que o entretenimento mediático ou o consumo não são {opiáceos} menos poderosos que o que aturde ao {yonqui} da esquina.

Viver com consciência e conhecimento é viver mais. Não experimenta com a mesma profundidade as coisas –um beijo, uma viagem, um projeto, uma obra de arte...– quem sabe delas, de sua raiz e sentido, que quem não. Dizia {Platón} que de entre as formas de loucura que {embriagan} às pessoas a melhor é a de ler cada coisa ou experiência como um signo ou reflexo doutras, infinitas e melhores. Viver lendo. Tomar o mundo mesmo como um grande livro. Não há droga que gere mais euforia, alegria, e descontraído abandono em relação às {menudencias} (e imundices) da vida.

Não há nada, em fim, mais alucinante que a lucidez. Por isso, ler compulsivamente é uma droga do mais recomendável. Mesmo embora um acabe como Dom Idealista: louco para os demais, mas viva e plenamente lúcido para quem sabe ler-nos.

*Professor de Filosofia.

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