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O diabo no montado

A injustiça e a pobreza, fizeram da região um dos sítios mais verdes da UE

 

O diabo no montado -

VICTOR Bermúdez
20/05/2020

Às vezes, a História escreve direito com linhas tortas: séculos de injustiça e pobreza, e um mínimo desenvolvimento industrial, fizeram que nossa terra seja hoy uma das regiões mais verdes e bonitas de Europa. Seus montados intermináveis e cheios de vida, suas recônditas aldeias e o riquíssimo património arqueológico e cultural que alberga, a convertem num dos lugares mais atrativos e com mais futuro ambiental do país. Ter a oportunidade, a poucos minutos ou quilómetros de teu casa, de atravessar um floresta centenária, admirar um anta neolítico, contemplar o voo das {grullas} ou, simplesmente, respirar ar puro, som privilégios que noutros lugares –com rendimentos mais altos– só/sozinho se usufruem em circunstâncias excecionais, férias ou, com sorte e dinheiro, após a reforma.

Embora só/sozinho seja nisto, os extremenhos temos tido sorte. Se esta região tivesse sido um pólo industrial ou estivesse mais perto de a costa ou as grandes capitais, boa parte de tudo esse património natural e cultural teria sido destroçado e mal vendido, e viveríamos, como quase toda a gente, rodeados de autoestradas atestadas, fábricas, povos/povoações quarto, condomínios e enormes polígonos comerciais nos que acreditar/achar-nos novos ricos para endividar-nos em não menos novas formas de indigência.

Por isso, já vêem: os extremenhos somos, se calhar, mais pobres (segundo com quem se compare um), mas não vivemos na miséria. Embora sim tentados, uma e outra vez, por aqueles que querem vender-nos-la baixo/sob/debaixo de o embrulho/envoltório do «desenvolvimento». Como o diabo no paraiso bíblico –num paraiso com forma de montado–, comerciais e gerentes de grandes empresas forasteiras descem sibilina e regularmente aos gabinetes dos políticos com sua pintoresca oferta de investimentos e negócios: fantasmagóricos casinos em metade do campo, minas milagrosas ou, o último grito: dezenas de gigantescas plantas fotovoltaicas (as-maiores/ancianidade-de-Europa, ouça) para continuar a ser o couto energético do país à custa de arruinar o paisagem e {trocar} campos de cultivo e {pastoreo} em quilométricos e mudos desertos de silício.

Tudo isto se volta mais alarmante ainda ao comprovar como noutras comunidades, e com o pretexto da crise que se nos vem em cima, se descontraem ou eliminam trâmites e controlos ambientais. Mudem também aqui uns poucos votos e verão como, em lugar de montados, teremos mais megaplantas fotovoltaicas ainda ou, como em Andaluzia ou Múrcia, novos e {megalomaníacos} projetos urbanísticos. Dirão que pomos a venda antes da ferida, mas muito me {temo} que neste país não temos aprendido, que continuamos empenhados em arranjá-lo tudo {trasegando} cimento e tijolos, ou esperando, como os aldeões daquela filme de Berlanga, a chegada duma {rutilante} multinacional que nos encha os bolsos de dinheiro fácil.

Mais valeria que, em lugar de tudo isto, {peleáramos} por defender uns preços agrícolas dignos que voltem a fazer rentável o campo extremenho, que {cuidáramos} das nossas pequenas e médias empresas ou que, de maneira mais ambiciosa, e como propunha um recente estudo da UEX, {exigiéramos} uma contraprestação aos benefícios que proporciona nossa imensa riqueza florestal: se, tal como reza dito estudo, nossos 630 milhões de árvores absorvem um CO2 equivalente às emissões de todos os carros/automóveis que circulam por Europa, ¿porque é que não teriamos de exigir um justo pagamento por isso?

{Piénselo}. Nossa terra não dá dinheiro como um casino, nem taxas como uma multinacional {dadivosa}, mas é rica em vida como poucas. {Gocemos}, {preservemos} e {démosle} o incalculável valor que tem. Não nos vá a passar como ao pescador da fábula. Já sabem, aquele ao que tentava um astuto {coach} para que {abandonara} seu simples modo de vida, multiplicasse sem pontaria sua produção, e trabalhasse dia e noite para, com o dinheiro que ganhasse, poder/conseguir viver justo… como tinha vivido sempre: com tempo, sossego e num lugar onde, em poucos minutos ou quilómetros, se pode atravessar um floresta centenária, admirar um anta neolítico, contemplar o voo das {grullas} ou, simplesmente, respirar ar puro.

* Professor de filosofia