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El Periódico Extremadura | Sexta-Feira, 22 de junho de 2018

Deus, pátria, família

Só/sozinho uns poucos conhecerão o pensamento de {Platón}, {Marx} ou {Nietzsche}, os mais críticos com isto

VÍCTOR Bermúdez
03/01/2018

 

A família está sobrevalorizada. E não é rancor após o {tráfago} natalício –¡o juro!–, mas uma reflexão genérica. ¿Porque é que {otorgamos} uma prioridade incondicional ao laço familiar sobre/em relação a outro tipo de relações sociais? ¿Não é o vínculo entre amigos –por exemplo– mais livre, racional ou desinteressado que o básicamente genético dos parentes?... De outro lado, a família –essa coisa {nostra} excludente e emocional– é, a miúdo, uma estrutura oposta ao interesse comum que representam a sociedade civil ou o Estado (quando não é –o Estado– mais que o órgão de expressão da oposição/concurso público entre famílias). Por isso, para evitar a corrupção política, o filósofo {Platón} se propôs eliminar a família, pelo menos entre as classes dirigentes. {Marx}, {Engels} e parte de seus {secuaces} não tinham melhor conceito/ponto dela. Para estes, a família {patriarcal} –ligada desde antigo à propriedade privada e à dominação de classe e género– era uma estrutura a erradicar da sociedade comunista. Mais, apesar de tudo isto (ou precisamente por isso), a família continua a ser hoje algo insuperável. Ainda em Ocidente, e sem ancoragem já na reprodução genética ou patrimonial, a família romântica baseada, não já nos filhos ou na herança (¿que necessidade de filhos ou património {heredable} tem o trabalhador moderno?), mas no mero hábito afetivo e a lealdade sexual (mais que no «amor» –comunicação íntima, cumplicidade, projeto comum...– que é mais coisa de amigos), continua a ser, ao dizer da maioria, o primeiro e mais importante.

O segundo, ao que se vê, é a pátria. A uma percentagem numeroso de cidadãos lhes deu neste ano por exibir bandeiras e gritar ordens patrióticas, alentando com isso o ataque ao modelo de convivência cosmopolita, {universalista} e solidário que alguma vez quis sonhar Europa. O caso catalão é um um mais dessa corrente separatista, essencialista e insolidário que seguem/continuam alguma das regiões ou {paises} mais ricos do nosso ambiente –com a particularidade de contar aqui com a incompreensível compreensão, quando não o apoio decidido, duma esquerda política {nominalmente} não nacionalista–. Mas o separatismo catalão, como qualquer outro no contexto europeu, não pode prescindir da justificação patriótica (não tem outra). O «queremos seguir/continuar nosso próprio caminho» do independentismo supõe um «nós», um «nosso» e um «o vamos a fazer melhor», isto é: um «povo/vila», um «património do qual apropriar-se», e um «somos melhores que vocês (ou, pelo menos, sem vocês)», todas as crenças, em suma, que forjam essa unidade de destino no universal que é qualquer pátria.

E após a {consagración} da família, e o regresso das pátrias, ainda fica o outro baluarte típico da desigualdade e as relações de dominação: a religião. À diferênça do que ingenuamente se acha, a religião segue/continua tão viva como sempre. Não há mais que consultar dados. A maioria da população mundial (e mais importante ainda: a mais prolífica) se declara crente. De outro lado, embora os índices de religiosidade costumam ser inversamente proporcionais aos de educação, esta, em muitas zonas do mundo, está ligada, quando não dedicada, à formação religiosa. Em nosso próprio país, salvando as (enormes) distâncias em relação às teocracias islâmicas e casos similares, a religião confessa está presente como opção de obrigada oferta (e como obrigatória, na prática, na maioria das escolas concertados) desde a etapa infantil ao ensino secundário (isto é, durante dezanove anos, muitíssimo mais que qualquer outra optativa). Em justa correspondência, as famílias espanholas muçulmanas e doutras confissões exigem a mesma oferta de formação religiosa para seus filhos. E, enquanto tudo isto acontece, as ensinamentos mais críticos, como a filosofia, são marginadas, aqui em Espanha e em quase toda a gente, de maneira que só/sozinho uma exígua porção de cidadãos conhecerá alguma vez o pensamento de {Platón}, {Marx} ou {Nietzsche}, justo três dos mais grandes críticos da família, a mistificação nacionalista ou a religião.

Por isso assim continuamos e {seguiremos}: Deus, pátria e família. ¿Que ano novo diziam?

*Professor de Filosofia.

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