+
Accede a tu cuenta

 

O accede con tus datos de Usuario El Periódico Extremadura:

Recordarme

Puedes recuperar tu contraseña o registrarte

 
 
 

{Comeréis} ovos

Se impõe agora um «sacrifício» por parte das gerações e turmas melhor situadas

 

{Comeréis} ovos -

VÍCTOR Bermúdez
13/05/2020

Lembrança, faz muito tempo, a uma companheira queixar-se amargamente de que os alunos lhe {reprocharan} a mesma {impuntualidad} que lhes recriminava habitualmente a eles. «¡{Habrase} visto –contava indignada–, {decidme} que eu também {llego} tarde! ¿E que terá isso que ver? ¡Pois vos {aguantáis} –contou que lhes disse aos alunos–: quando {seáis} pais, já {comeréis} ovos!». Me acordo da castiça naturalidade com que lançou esta espécie de proclama {supremacista} dos ovos e da sorriso, igualmente espontânea, dos colegas ali presentes...

O certo é que a cena não tinha nada de espantoso. O preconceito {cuartelero} de que a veteranice é fonte incontestável de privilégios –por arbitrários que estes sejam– é comum não só/sozinho nas salas de aula, mas em quase todos os âmbitos sociais e profissionais. Assim, se supõe que os empregados mais jovens, os docentes novatos, os médicos em práticas, os reclutas recém chegados, etc., têm de realizar as tarefas mais ingratas (e, às vezes, difíceis), trabalhar mais, receber menos, e submeter-se sem {chistar} aos hábitos, ordens e caprichos dos colegas de maior/velho idade (e não sempre de mais categoria/escalão ou mérito). Este dogma é parte duma velha estrutura «{gerontocrática}» de dominação que está presente (misturada com outras como a camada social, o género ou a profissão) em quase todas as culturas, e cujo êxito se deve, em grande medida, a um «contrato geracional» implícito: aquele que assegura aos mais jovens que seu entrega e submissão se verão recompensadas, após um número prudente de anos, com o promoção à mesma posição de privilégio que usufruem os adultos (esses que já «comem ovos»).

Ora bem, ¿o que é que se passa se esse acordo geracional se quebra? Desde há decénios, crise após crise, nossos jovens têm cada vez mais claro que, salvo exceções, vão a viver pior que seus maiores/ancianidade, e que aqueles conquistas (um estreitamente estável, uma casa própria, reunir certo património) que antanho se tinham por uma compensação natural a muitos anos de esforço, som, hoje em dia, pouco/bocado menos que um milagre. O pacto intergeracional se está rachando com a mesma rapidez que aqueles outros mecanismos –o estado de bem-estar, a prosperidade das classes médias, o prestígio da educação pública...– que garantiam um nível mínimo de coesão social e conformidade em torno de um sistema produtivo em si mesmo pouco/bocado ou nada igualitário.

E bem, ¿que se pode e deve fazer agora? O primeiro, evitar as promessas. Augurar que «nalgum momento» a reativação económica precisará destes jovens (que já não o serão tanto/golo) tão {exquisitamente} formados e acostumados a acostumar-se a tudo, não lhes vale de nada a pessoas que vêem, dia após dia, como se {esfuma} a possibilidade real de realizar seus projetos laborais e pessoais. Se impõe, pois, um «sacrifício» por parte das gerações e turmas melhor situadas; não só/sozinho por puro sentido da solidariedade e a justiça, mas também por interesse/juro na estabilidade do sistema que sustenta seus próprios privilégios. Uma política fiscal e social decidida e de dimensões europeias (ingreso mínimo, regularização do emprego temporal, distribuição do estreitamente, controlo do preço dos alugueres, investimento em educação pública, bolsas, rendimentos por natalidade...) é o menos que mereceriam estes jovens, vítimas do incumprimento do «contrato geracional».

Sem dúvida que a eles também teria que exigir-lhes algo. Não já formação profissional ou «{resiliencia}» (de ambas coisas andam sobrados), mas acordo/compromisso crítico e mobilização política, algo imprescindível para sair do atoleiro. E isso que também aí parece que estão a dar o calo. Recentes estudos mostram que os jovens estão cada vez mais interessados em política (o qual não quer dizer na política tradicional ou de partidos –não há mais que {recordar} o 15-M–). E as faculdades de filosofia estão cheias a transbordar, oferecendo, algumas, graus novos e promissores, como o de Filosofia, Política e Economia, que estudam já vários de meus exalunos. Tenho confiança neles. Não para que esperem seu revezo de «comer ovos», mas para que saibam como fazer para que possamos comê-los todos.

*Professor de Filosofia.