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Comer é de pobres

A verdade não se cozinha e comer é de pobres. Não de solenidade, mas de espírito

 

Comer é de pobres -

VÍCTOR Bermúdez
29/07/2020

Comer é de pobres». O repete minha amiga a pintora Carmen Rodríguez Palop cada vez que, em metade duma conversa de barra/balcão, alguém sugere {apoltronarse} a comer numa mesa. Essa necessidade {-} ou muito pior: esse gosto -de {apesebrarse} frente a um prato a encher-se a boca de matéria orgânica em descomposição- em lugar de usá-la para o que Deus a fez, isto é, para recriar o mundo com ela {-} é de pessoas, pensa ela, com muito pouca alma.

Na mesma linha, lia ao editor Andreu Jaume {recordándonos} como o culto contemporâneo ao corpo (essa coisa idealizada pelo {cuñadismo} {metafísico}), isto é, à saúde, ao desporto, ao sexo, ao {despelote} sem complexos (¡{Ah}, o horror! ¡O horror!) e à gastronomia, estão relegando ao espírito e ao {lógos} a uma posição marginal. Os cozinheiros {-} dizia Jaume -som agora nossos filósofos- uma redução gasosa dos mais líquidos e postmodernos -.

Por isto {admiro} a defesa desembaraçada e sem esperanças (¿terá outra mais digna?) que faz a Palop do espírito sobre/em relação a a carne, da figura erguida, em vigília perpétua, do conversador de barra/balcão -vinho em {ristre} e escudo de tampa/petisco contra a gula- face à {sanchopancesca} do qual procura {apoltronarse} junto a um prato. {Fíjense} que a hobby/adeptos desmedido a sentar-se a comer é sempre um sintoma de decadência moral e cultural (e, politicamente, de que há princípios que cozer ao fedor de apetites mais crús). Por isso, quando um acredita não acreditar/achar já nada (e lhe faltam criadilhas para dar-se a drogas mais potentes) se atira à {manduca} como animal de quinta ou bolota (segundo a rendimento). E que, pelo mesmo, uma civilização começa seu declive quando do frugal abastecimento em campanha {-} e o culto ao vinho {-} passa ao {boato} dos banquetes -e a outras e mais {apolíneas} {flatulencias}-. Entreter-se na comida/almoço é depressivo, terminal, a mais vã fugida até o lama e a derruba -ou, quando menos, até o sopor e a sesta-.

Mas o pior é que o império dessa figura tontinha, sentimental, frívola e tolerante com tudo (o que não ameace seu interesse/juro) do gordo {Sancho} {Panza} (hoy encarnado -ou panado- em parte no «amante da gastronomia»), não só/sozinho representa, sublimado, o {orbe} burguês (é seu {arquetipo} moral, tão diferente ao do guerreiro, o sábio ou o santo, todos eles humanamente em forma, isto é: bélica ou espiritualmente ativos), mas tem {colonizado} (de «{colon}» e não de «{colonus}») o espaço popular -o das tabernas, por exemplo, substituídas por franquias de mesa obrigada e engorde por turno- e {empapadolo} que hoy se nos quer fazer tragar como cultura. Comprovem, se não, o desenfreado festival de {menudillos} em torno de o gastronómico com o que se andor {empachando} à pessoas (programas e concursos de cozinha, secções sobre/em relação a o «arte de comer» nos jornais, cozinheiros opinando nos {platós}, {gastro}-bares, rotas gastronómicas…), se bem não todos comem aqui na mesma panela. Assim, enquanto o neoproletariado tira barriga, e até obesidade {mórbida}, jantando face ao {masterchef} da televisão, a neoburguesia -incluindo a progressista e {descreída} já de toda resistência ao consumo- luz a forma do velho proletário famélico adotando «posições ético-filosóficas» não menos ligadas ao {condumio}: o vegetarianismo, o {slow} {food}, os alimentos orgânicos, o sibaritismo erudito, o cosmopolitismo {culinario}, a religião {hortelana}… Se vê que a {democratización} das proteínas obriga a uma versão mais distinguida do culto ao estômago.

No entanto, e de milagre, junto a este guisado cultural insosso e insípido (a exceção {pantagruélica} se volta asco quando se converte em norma), ainda sobrevive a figura {asténica} e {quijotesca}, {raciocinante} ou mística -segundo o vinho- do conversador de barra/balcão, sempre com a fome justa que requer o engenho. Por esta {figuración} tão grega do espírito {trasiegan} ainda nossa raiz e nosso mas. {Cultívenla} e abandonem essa obsessão pueril por {amamonarse} comendo, falar de comida/almoço, fotografar pratos, procurar mesa… Não o esqueçam: embora se deixe você {timar} (questão de imagem) nos locais mais {cool} do universo, a verdade não se cozinha, e comer continuará a ser coisa de pobres. Não de solenidade, mas de espírito.

* Professor de filosofia