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El Periódico Extremadura | Quinta-Feira, 2 de abril de 2020

Com máscara

Meu amigo está convencido que o coronavirus tirará o pior, mas também o melhor das pessoas

ALFONSO González Jerez
12/03/2020

 

Ontem um amigo me reconheceu que tinha facto/feito o amor com máscara. Com uma máscara cirúrgica, como se fora a extrair-lhe o coração à mulher. Como justificação argumentou que não conhecia à {piba} de nada e que falava com um estranho acento. Ligeiramente estupefacto lhe {pregunté} que tinha o acento como para colocar-se uma máscara em semelhante circunstância. Não soube precisá-lo, mas repetiu que pôs-se muito nervoso. A bocados o acento lhe parecia italiano e, já se sabe, desde/a partir de o passado fim-de-semana Itália voltou a ser O {Decamerón}, mas não escrito/documento por {Boccaccio}, mas por {Battiato}: «Eu prefiro a salada/a Beethoven e {Sinatra}; /a {Vivaldi}, uvas {pasas}/que me dão mais calorias». Que grande, {Battiato}, meio século capotado no talento de fazer-se incompreensível.

O mais extraordinário –me jurou– é que a mulher, jovem e {morena}, despistado e hipnotizador, não mostrou estranheza nem menos ainda o rejeitou. «Ao contrário/pelo contrário/ao invés, ao contrário/pelo contrário/ao invés», insistia meu amigo, «eu acredito/acho que gostou de, eu acredito/acho que a máscara dos {cojones} terminou por dar-lhe uma confiança que não sentia». {Ah}, ¿era desconfiada? Me disse que sim, que o era. Mais duma hora lhe levou travar uma conversa mais ou menos recíproca. Outra hora lhe custou que {riera} com a ajuda de um par de cubas-livres. «Não {veas} a tensão da {tipa} quando entrou em casa», me explicou o amigo, «até que não {volví} do banho com a máscara posta não começou a descontrair-se». Me {reí}. Mas ela, sentada à beira de a cama morna, ao vê-lo com máscara se descontraiu e, pela primeira vez, lhe enviou um sorriso sem condições.

Meu amigo está convencido que o coronavirus tirará o pior, mas também o melhor das pessoas. É mais: nos ajudará a entender, em especial se não se lhe pode conter, que vem a ser o mesmo. Porque no melhor {anida} a miúdo o pior e o pior com frequência alimenta provavelmente como um suculento veneno que ajuda a crescer. O medo aterroriza, com efeito, mas também estimula, seduz, {coquetea} com a vida ou com a morte. E como {deseamos} o medo. Com que intensidade vivemos os sonhos de destruição sem {paleativos}, desolações portáteis, a saborosa ameaça de um apocalipse que reduza tudo significado a cinzas. Um dos primeiros {tuits} que {leí} sobre/em relação a a pandemia era de um sujeito anónimo que escreveu com certeira inocência: «Vamos ver se esta merda por fim vai a sério». Nalgum lugar São Agustín conta que em sua época –um instante histórico de violências políticas, sangue pelas ruas, conquistas e cercos, epidemias e dissoluções eram frequentes entre seus coetâneos-os relatos e pesadelos sobre/em relação a o fim dos tempos. Uma estranha pulsão autodestrutiva. Uma sociedade que sonha –na literatura e nas cafetarias, nos filmes e nas redes sociais– com seu próprio, abrupto fim, talvez não está longe de seu fim autêntico. Como se o estivéssemos chamando em voz baixa, num sussurro, para que nos libertasse da asfixiante complexidade dos discursos, das opções, dos problemas e os conflitos. Antes tudo era mais fácil.

Lhe {comento} a meu amigo que a União Europeia vai a dedicar 25.000 milhões de euros para travar o coronavirus e paliar seus efeitos sanitários, económicos e laborais. Me mira com um receoso ceticismo, tira uma máscara do bolso, se a ata na nuca e, com um cumprimento, sai rápido à rua. «Fecha bem antes de sair», me grita, e bate um bater da porta.

*Jornalista.

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