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{Ciao}, «Bela {Ciao}»

Deixou de ser um hino antifascista para ser o grupo sonora de ‘A casa de papel’

 

{Ciao}, «Bela {Ciao}» -

ENRIQUE Pérez Romero
19/05/2020

Na sexta-feira passada aconteceu algo muito interessante em Twitter. Durante parte da tarde foi tendência «Bela {Ciao}» porque circulava um vídeo no qual vizinhos/moradores do madrileno Bairro de Salamanca teriam empregado a canção durante uma manifestação.

«Bela {Ciao}» é um tema, como tudo folclore, de origens vagas, embora parece proceder duma canção francesa do século XVI que deu lugar a diversos temas a princípios do século XX, como «{Oi} {oi} dei {Koilen}» (Ucrânia) ou «{Picchia} {picchia} a {porticella}» (Itália). Do tema italiano acabou surgindo «Bela {Ciao}», hino dos {partisanos} que lutaram contra a ocupação nazi e o fascismo italiano entre 1943 e 1945. A canção se socializou a raiz do Primeiro Festival das Juventudes Democráticas (Praga, 1947). Vinte anos depois foi retomada em Maio do 68 e pelos grupos sul-americanos afins a Salvador {Allende}. Também nessa altura surgiram as primeiras versões populares: a italiana {Giovanna} {Daffni} (1962), o grupo chileno {Quilapayún} (1962), o francês {Yves} {Montand} (1963) ou o italiano {Giorgio} {Gaber} (1963). Desde então, a canção quase não tinha sido utilizada politicamente.

O tema se reativou pontualmente durante as insurgências de 2011, tendo testemunhos de seu uso para ilustrar a «revolução» egípcia (16/02/11), nas vagas posteriores ao 15-M na Gran Vía madrilena (25/07/11), ou por parte de {Occupy} Wall Street em Nueva York (15/10/11). Herdeira dessa corrente, a coalizão esquerdista grega {Syriza} a utilizou para celebrar a histórica noite em que ganhou as eleições (25/01/15); a voltou a empregar para as de setembro desse mesmo ano e, de facto, animou o comício de fecho de campanha ao que foi Pablo Iglesias (19/09/15).

Unidas Podemos a incorporou a sua campanha para as eleições legislativas de Abril de 2019. Iglesias e {Colau} a cantaram a coro no distrito barcelonês de {Nou} {Barris} durante a campanha das municipais de Maio desse mesmo ano (11/05/19). Poucos meses antes, a tinha dançado Pedro Sánchez no encerramento da Convenção do Jogo/partido Socialista Europeu em Madrid (23/02/19).

Entre o uso de {Syriza} na Grécia (2015) e o do PSOE e UP em Espanha (2019) aconteceu algo muito importante: a estreia da bem-sucedida série espanhola ‘A casa de papel’ (2017). Esse é o verdadeiro ponto de inflexão da canção. Se utiliza pela primeira vez no episódio oitavo da primeira época (20/06/17) e como título do sexto e último capítulo da segunda época (23/11/17). Na terceira (19/07/19) irrompe a atriz e cantora {Najwa} {Nimri}, que difundiu simultaneamente um videoclipe com uma nova versão da canção em espanhol (mais de três milhões de reproduções). Com a estreia da terceira época, um dos protagonistas, Pedro Alonso, contou que numa digressão publicitária pelo sul de França um presidente da Câmara Municipal de direitas pediu que se {cantara} o «Bela {Ciao}»; Alonso assegurou que a canção «tem tomado uma nova dimensão que vai para além de signos políticos».

Como é fácil deduzir, quando na sexta-feira passada alguém montou um vídeo das manifestações no Bairro de Salamanca com o áudio de «Bela {Ciao}», muitos milhares de pessoas pensaram que era certo. O ‘{hashtag}’ «Bela {Ciao}» foi uma das dez primeiras tendências durante toda a tarde, e mais de vinte mil pessoas escreveram {tuits} dando por facto/feito que era verdade.

¿Que é o fascinante? Tem a ver com o que acontece quando um significante político passa à cultura de masas. Tal como advertia Pedro Alonso, «Bela {Ciao}» deixou de ser um hino antifascista e passou a ser o grupo sonora de «A casa de papel». Uma série que nada tem a ver com o antifascismo; em todo o caso, com uma mistura de rebeldia adolescência, postulados liberais e {coqueteos} com os princípios básicos do capitalismo. ¿Consequência? Que era mentira que os vizinhos/moradores do Bairro de Salamanca a {cantaran}, mas que perfeitamente poderia ter sido verdade. E esta é a história de como a cultura de masas, com o aplauso ou {beneplácito} geral, contribui a esbater ideias e formas num {magma} audiovisual no qual tudo pode significar qualquer coisa, isto é, no qual nada significa nada.

* Licenciado em CC. da Informação