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El Periódico Extremadura | Quinta-Feira, 2 de abril de 2020

Cânone cultural e políticas de género

A história não se pode re-escrever. O cânone presente e futuro sim

VÍCTOR Bermúdez
11/03/2020

 

Há muitas razões para defender a chamada «discriminação positiva» a favor das mulheres no acesso a cargos ou {roles} tradicionalmente {copados} por homens. A mais fundamental é a inegável discriminação histórica que têm sofrido e que devemos apagar do mapa da maneira mais rápida e eficaz possível. Outra é o dado objetivo de que a formação das mulheres é hoy, na maioria dos campos, igual ou superior à dos homens. A terceira remete ao facto/feito de que já existem outras políticas de discriminação positiva (até minorias, pessoas com diversidade funcional, famílias numerosas, etc.) que não provocam nenhum recrimine. Ora bem, embora reconheça a utilidade e legitimidade das políticas de {paridad} na luta contra a desigualdade de género, acredito/acho que temos de vigiar que estas não degenerem em arbitrariedades inadmissíveis.

Um desses erros é o que resulta de confundir a discriminação positiva em relação a critérios mais imparciais de eleição (pelo qual, a igualdade de méritos, se escolhe a uma mulher antes que a um homem para um determinado posto, evento, lugar num cânone, etc.), com a discriminação positiva como critério de eleição acima de qualquer outro.

Curiosamente, este erro costuma dar-se só/sozinho naqueles campos que, ou bem se consideram –não menos erroneamente– como «decorativos» (a arte, as humanidades, certos eventos ou instituições), ou bem estão {carcomidos} pela inconsistente crença na «objetiva» impossibilidade de critérios objetivos. Noutros campos (a medicina ou as ciências «duras» por exemplo) a ninguém no seu perfeito juízo se lhe acontece «repartir» os cargos, os artigos em revistas ou os prémios académicos em forma, sem mais, paritária. Quando alguém vai a um hospital ou se matricula numa faculdade de ciências não escolhe (como é lógico) aquele ou aquela na qual existe mais {paridad} de género, mas aquele ou aquela que conta com mais profissionais de reconhecida eficácia e prestígio (e se além disso há {paridad}, melhor). Do mesmo modo, quando um vai a uma exposição de pintura ou lê um manual de filosofia deveria esperar sempre encontrar ali as melhores pinturas ou ideias filosóficas, sejam quais sejam o género, a raça ou a nação de quem as pinta ou pensa. Mas não, neste caso alguns acreditam que se pode confundir completamente a cultura com a política. Total –parece pensar-se–, como ninguém sabe bem que é a arte, e a ideia de que existam ideias melhores ou mais verdadeiras (em letras) parece ingénua –e até um pouco/bocado fascista–, ¿que mais dá impor sem mais critérios paritários?

Se aduz às vezes que, dado que os critérios para decidir a quem se exibe numa exposição, se lhe dá um prémio ou se dispõe num programa académico (de letras), som uma mera «construção cultural» (os que acreditam isto descartam –naturalmente– que sua crença seja também uma construção cultural) e, sobretudo, uma construção cultural injusta ({heteropatriarcal}, {etnocéntrica}, etc.), toca {decapitar} ditos critérios e usar outros novos.

Não me parece má ideia, mas só/sozinho se se demonstra que aqueles critérios estão viciados e se propõem, em troca, outros {racionalmente} mais objetivos –desde/a partir de a {asunción} da possibilidade de tal objetividade, sem o qual tudo se reduz à força, embora seja a dos votos–. Entretanto, o cânone de um arte ou um saber só/sozinho pode ser o que é. Tal como o facto/feito de que com ele se mostre que se não houve mais mulheres artistas, cientistas ou filósofas não é, fundamentalmente, porque seu «genialidade inata como mulheres» (um mito populista igual que o que, ao invés, mantém o {patriarcado}) tenha sido escondida ou reprimida mas, simples e brutalmente, porque se lhes negou tudo acesso à cultura e à expressão de seu talento pessoal. Negar isto, procurando baixo/sob/debaixo de as pedras figuras femininas, sejam as que sejam, para dar a toda costa ao cânone histórico uma aparência paritária que jamais teve a sociedade que o produziu faz um fraco favor à luta pela igualdade de género. A história não se pode re-escrever. O cânone presente e futuro sim e, se tudo marcha como deve ser, este teria que estar, ao fim, repleto de mulheres.

*Professor de Filosofia.

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