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Azul azulejo

 

MAR Gómez Fornés
16/05/2020

Cada dia quando amanhece, a vida que assoma na janela é um fado. Uma tristeza sucessiva e constante. Subé a persiana e {deseas} ter umas vistas diferentes da cidade que te tem sequestrada: vistas ao mar, a um grande mercado de frutas frescas, à ondulação de telhados com seu turbante de nuvens. {Quieres} duma vez encher-te os olhos de sinos da catedral; do dança de travessas e {mandiles} que levam o pequeno-almoço à praceta. {Quieres} de repente, que irradie pela triste olho mágico de Madrid, a bofetada do cheiro a {churros} e ao longe, um acorde de missa de doze.

As janelas, mais parecem olhos {entornados} pelo cansaço e o insónia, que suporte de gerânios e {azucenas}; e as varandas, assomam pelo {chaflán} como uma frente enrugada, {arada} como a terra. É que a dias, uma ressente-se de pura ressaca pela bebedeira de morte e notícias embebidas em álcool de arder.

Não fica pois, mais remédio que viver desde/a partir de a poesia. Subir a sua açoteia de {claridades}, procurar os matizes do ar para respirar...e é ali, que surgem os cores.

Numa lata tenho guardado o azul-azulejo, que é a cor da flor azul da palavra. A palavra de um poeta que corre em direção contrária e beija as esquinas dobradas de umas lençóis. Não há palavra mais precisa que a linda palavra azul, a que se faz mar salgada e oculta cidades imensas de {coral} entre seus {céfiros} líquidos.

Há outra cor em minha lata que chega à tarde, de forma súbita e dói como se {miraras} ao sol. Sim, porque a dor é de cor {azafrán}, essa especiaria derivada dos estigmas secos da flor, a cor que tinge o céu ao entardecer. Justo esse momento no qual o olhar fica pendurada no {tendedero} para escorrer-se as lágrimas das oito. Justo esse momento no qual a vista se perde procurando algum ruído da cidade antiga: um travagem brusca, uma sereia, um golpe de sorte, um café com palavras, uma mãe esperando, a melodia de um oficina, o {pespunte} de avós no {atrio}, umas andorinhas, a saída do conservatório e assim, até ver como aos poucos, a noite vai entrando pela porta.

Aqueles dias amolecidos pelo vapor dos lembranças. Aqueles dias tão nossos, na cidade antiga, suaves e sedosos, dos que {Marieta} Radiante, candidato/candidata a poeta, se pergunta se existiram. Aqueles dias, segundo {Marieta} «em que parecíamos indestrutíveis, em que éramos cintilação».

Quando por fim chega a noite procura uma entre o cheiro das cozinhas, um cor. Se ouve ao fundo um concerto de colheres, um garfo agitado contra a porcelana batendo um ovo; um pai fazendo o nó à saco/sacola/bolsa do lixo; uma máquina de lavar roupa que {centrifuga}; uma mãe cansada e muito cheiro a banho de bebé. Alguém tem chocado umas taças de vinho. E no quinto esquerda fazem {palomitas}, como se a vida de antes se estivesse estreando na ecrã.

Procuro a cor que envolva este momento e poderia ser o da chuva sobre/em relação a fundo de floresta. Esse instante no qual urge um corpo ao que ir correndo e apoiar-se e ficar olhando a frescura. Sim, a quietude tem a cor da chuva sobre/em relação a fundo de floresta profunda.

A vida deveria ser um óleo de dia e um fado de noite. Uma tristeza portuária e salobre. Deveria, a vida, embalar-se sempre no {contorno} duns braços. Aí, lhe poria eu uma tonalidade de nostalgia, quase transparente: cor branca-Lisboa. ¡Quem estivesse ali!

Lembrança que {compré} os cores de seu mar. Os tenho em minha lata, como bolachas. E em dias de ressaca, me os ponho como vestidos. ¡{Ay}! cores de suas ruas e seus nevoeiros, {desenfocad} a tristeza, {amplificad} por favor a beleza.

*Jornalista.