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Assuntos alheios

 

JUAN JOSÉ Millás
29/07/2020

Se {llamamos} garganta a um desfiladeiro, ¿porque é que não chamar desfiladeiro à garganta? Se calhar porque literariamente falando não funciona. No entanto, a garganta tem mais de desfiladeiro que o desfiladeiro de garganta. Se me acontece enquanto trago saliva a tudo trapo porque as glândulas correspondentes se têm posto a fabricar mais da habitual, ignoro porque é que. Vem a ser como quando uma {rambla} seca se cheia de água e arrasta com tudo o que encontra pela frente/por diante, sejam tendas de campanha, mesinhas-de-cabeçeira ou animais domésticos. Me {acerco} à cozinha, cheio um copo de água, me o {bebo} sem descansar, de um só/sozinho trago, e meu desfiladeiro orgânico, minha garganta, canaliza eficazmente essa bilhete brutal de laje.

Hoy me tenho levantado consciente de meu corpo. Trata-se de uma doença sem nome que consiste em apreciar tuas mãos ou teus pés como se te os acabassem de outorgar. {Estás} aí, sentado no borda da cama, estranhado de ter unhas, de ter coxas, de ter rótula. De modo que te {pones} em pé para ver como funciona tudo esse conjunto/clube e te espanta a sincronia com a que as pernas se movem, a precisão com a que altas a direita uma vez que a esquerda se tem pousado sobre/em relação a o chão. ¿E que dizer da habilidade para subir ou descer escadas? A rótula te parece um ponto de articulação incrível, tão eficaz pelo menos como uma conjunção {copulativa}. Corpo e gramática. O antebraço como oração subordinada do braço.

Não sei se isto é ao que chamam {propiocepción}. Se calhar não, porque em meu caso trata-se de uma {propiocepción} exagerada, um pouco/bocado dolorosa. Vejo os dedos sobrevoando as teclas do computador e me parecem de outro de tão meus que som. Tudo aquilo que é muito nosso parece de outro. Os ricos protegem suas propriedades com tantos sistemas de segurança porque não estão muito seguros de que sejam suas. Às vezes penso que minhas digestões som tão pesadas porque {digiero} assuntos que não me pertencem. Assuntos alheios. Entretanto, não deixo de produzir e de tragar saliva, o que me obriga a visualizar angustiosamente o desfiladeiro de minha garganta e contemplar com pânico a escuridão do esôfago.

* Escritor