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Antes morta que simples

 

PILAR Galán Rodríguez
14/05/2020

É surpreendente a capacidade de adaptação do ser humano, seu instinto de sobrevivência. Nos temos adaptado a esta nova realidade aos poucos, e agora nossa normalidade está cheia de gestos que se calhar sempre foram necessários, e nunca quisemos assumir. Todos nos {quitamos} os sapatos quando {volvemos} da rua, e nos {lavamos} as mãos, como se antes não tivesse {gérmenes} nos mesmos sítios que agora {miramos} com {aprensión}. Temos assumido os luvas, as máscaras e a lixívia como complementos na moda, e durante um mês e meio nos temos {apañado} com nossos conhecimentos estéticos, que é meu caso, {confieso}, som inexistentes. De facto, minhas sobrancelhas agora lutam por voltar a povoar-se depois de/após uma depilação frustrada, nada que não possam arranjar o tempo e umas mãos mais peritas que as minhas. Muita adaptação, sim, e muito instinto, mas foi abrir as cabeleireiros e nos temos lançado à necessidade mais urgente: a de ver-nos bem, e que nos vejam. Há quem tem ido só/sozinho a cortar/fechar-se umas {greñas} que pareciam de náufrago, por pura necessidade, porque quase esteve prestes a deitar-se uma saladeira à cabeça e cortar/fechar-se o que sobressaísse, o corte tigela, como nos fazia minha mãe para poupar-se a cabeleireiro de cinco filhos, enquanto não pudemos protestar, claro. Estes têm ido como se o cadeirão do cabeleireiro fora um cadeira elétrica, mas outros se têm lançado para madeixas, corantes, unhas, e outros retoques. Se calhar sejam os mesmos que eu tenho visto arranjar-se para ir às compras enquanto os demais {cubríamos} as {lorzas} adquiridas com as socorridas malhas e as t-shirts que podem lavar-se a noventa graus. E os mesmos que saíram a fazer desporto o primeiro dia como se fossem espectadores e não meros passeantes, combinados até as sobrancelhas (perfeitamente {depiladas}, não como eu) e refletores como pessoas anúncio. Pode que como espécie nos defina nossa capacidade de adaptação ao meio, mas não temos de esquecer nossa necessidade de olhar-nos e reconhecer-nos, e sobretudo, de ser olhados. Há algo comovente nesse afã com que nos temos lançado a ver-nos giros, e sobretudo nesse incrível gesto de pintar-se os lábios, para tapá-los com uma máscara, e em arranjar-se as unhas que vão a cobrir umas luvas. Antes mortos que simples, sim, mas tomar-se o esforço de arranjar-se, embora te {dejes} as sobrancelhas no tentativa, não deixa de ser uma forma de resistência contra a tristonha e cinzento uniformidade destes dias.

*Professora e escritora.