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O abraço impossível

O espírito da transição, representado pelo pintor Juan Genovés, não é possível hoje em dia dada a distância da turma política

 

O abraço impossível -

ANTONIO Cid de Rivera
17/05/2020

Na sexta-feira faleceu o pintor valenciano Juan Genovés. Ao inteirar-me da notícia me vinho à cabeça seu quadro ‘O Abraço’, ícone da transição, símbolo da reconciliação de um povo/vila depois de/após 40 anos de ditadura, e não pude por menos que sentir tristeza. Nesta Espanha nossa somos muito de abraçar, de sentir aos que queremos e nos querem, e agora que os abraços tornaram-se em algo impossível pela pandemia do coronavirus, mas também pelo desencontro que vive nossa turma política, não deixa de resultar irónico que quem expressasse num quadro o espírito de entendimento da nossa sociedade de nessa altura tenha dito adeus.

O quadro leva {aparajada} uma história cheia de simbolismos que, após conhecê-la, deveríamos sentir-nos orgulhosos de que fomos capazes de fazer neste país. ‘O abraço’ começou a pintar-se no ano 1973. O autor, ativista contra a ditadura, procurava com sua obra refletir a reconciliação, a liberdade, a busca de um novo futuro dos espanhóis com a chegada da democracia. Vivia junto a um colégio e um dia viu sair aos meninos de turma e observou como se abraçavam e se disse «esta é a ideia». Assim o contou o artista em multidão de entrevistas e assim o expressou numa obra que depois, já terminada em 1976, utilizou a Junta Democrática como metáfora para exigir a libertação dos presos políticos em Espanha após a morte de Franco.

Mais tarde Amnistia Internacional também usou a imagem para um dos seus cartazes, os quais encheram milhares de paredes em toda A Espanha. De facto, um dos acontecimentos mais tragicómicos da história democrática de Espanha, a matança dos advogados da rua de {Atocha}, perpetrada por membros da extrema direita em Janeiro de 1977, que marcou um marco no processo até a democracia do nosso país, também teve relação com este quadro. Na parede desse gabinete de advogados onde irromperam os assassinos e morreram cinco pessoas e outras quatro resultaram feridas, pendurava um póster de ‘O abraço’ que, contaram depois, chegou a salpicar-se com o sangue dos assassinados. Daí que em 2003 se levantasse em Madrid um conjunto/clube escultórico inspirado na obra de Genovés que foi colocada na praça/vaga de Antón Martín, a apenas uns passos de distância do número 55 da rua {Atocha}.

A OBRA se encontra hoje em dia no Museu Reina Sofía, mas esteve perdida em Estados Unidos, onde a adquiriu um colecionismo de {Chicago}, e foi na época de Adolfo Suárez quando o Estado pôde fazer-se com ela de novo e voltar-la a Espanha pelo valor simbólico que encerrava na história recente dos espanhóis. O quadro saiu em 2016 para instalar-se provisoriamente no Congresso dos Deputados na comemoração do 40 aniversário das primeiras eleições democráticas. Perguntado/questionado nessa altura Juan Genovés pelos paralelismos entre a época que alumiou o quadro e a atual, sublinhou que «não se parecem em nada» e lamentou a falta de «alegria e ilusão/motivação» na política atual. «Naquela época --disse-- tinha alegria e esperança por conseguir a democracia e ser como o resto de Estados europeus. Hoy essa ilusão/motivação não a encontro por nenhuma parte. Há um desleixo e uma desconfiança nos políticos um pouco/bocado desagradável».

Teria que retomar o espírito da obra de Genovés agora que nosso país e seus dirigentes andam sem abraços e esta pandemia só/sozinho tem propiciado um afastamento maior/velho em todos os conceitos/pontos. Não estou pedindo um abraço entre Sánchez e Casado, nem entre Igrejas e {Abascal}, entre outras coisas porque é impossível. Mas igual que em 1976 nos {aventurábamos} como país até um destino cheio de incógnitas depois de/após 40 anos de escuridão, se calhar agora seria momento de deixar de lado as diferenças, os bandos e os interesses partidaristas para encontrar-se justo nesse sítio onde o objetivo é comum: salvar a Espanha dos perigos que nos espreitam e olhar até o futuro.

Juan Genovés pintou seu quadro cheio de homens e pôs à direita a uma só mulher que procurava um abraço mas não o encontrava. Quis simbolizar o desejo de um amanhã melhor, a busca do que vinha que sem dúvida devia ser melhor.

Uma réplica de ‘O abraço’ pendura desde/a partir de 2016 numa das salas do Congresso dos Deputados. Se decidiu instalar ali depois da exposição de 2016 se calhar para {recordar} a nossos dirigentes que, com independência de representar a os seus votantes e de defender seus idealizadores políticos, som herdeiros de um espírito comum. Esse que fez possível faz 40 anos chegar até onde hoy estamos, esse que propiciou que espanhóis de diferentes bandos, turma e condição se dessem um abraço e iniciassem o caminho da reconciliação e a construção de um país diferente.