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¿A onde foi a beleza?

 

MAR Gómez Fornés
23/05/2020

A tristeza se tem metido no bolso e parece um lenço de papel molhado. Oxalá se pudesse usar e atirar como um {klínex}.

A esperada saída à rua não foi para mim, a aventura que esperava. Tenho visto imagens para a demolição. Talvez me deixei levar pelo desejo de ver o mundo tal como o tinhamos deixado a tarde do seis de Março. A Terapia com seus terraços desdobrando o cheiro a {sandwich} misto moderado; o {Trastoque} com suas lanternas na esquina parecendo um barco {varado}; {Sukram} com suas delícias polvilhando de pigmentos a noite; {Palmer} dando sombra com suas gigantescas palmeiras de chocolate e seus {flanes} de gema de sol; {Álvarez} Gato com seus {crujientes} e tempuras embebendo os {cucuruchos} e O {Laúd}, com seus concertos e {madrugones} na ponta da língua, {cascabeleando} {trabalenguas} e atendendo {noctámbulos} em mochos por tudo Madrid.

Ao sair de casa {cogí} o lenço, o {eché} ao bolso e resultou que não era um lenço, que era a tristeza {pegajosa} e {desconfinada} que se vinha comigo de passeio. Por isso ao abrirlo, vi as consequências da pandemia jorrando pela paredes de cada negócio, de cada bar e cafetaria. E se alguma vez teve uma mercearia, já nem se recorda. A florista andor pedindo cores; na sapataria assomam as botas do último inverno como espectros duma estação sem malas.

Enquanto avançava pelas ruas completamente mudas, somente uma lençol branco pendurada numa grade, usada como cartaz ou bandeira de paz, ¿quem sabe?, chamou minha atenção; me {acerqué} e pude ler: «para ti Sergio», ao lado tinham depositado umas flores, umas velas, insígnias e caixas de sapatos, cujo interior se me representava como um inquietante secreto. Dois maçãs mais abaixo, entre a roupa estendida, alguém tinha espalhado a modo de lençol também, uma fotografia de os seus pais com um grande laço preto. Estampas de Madrid que {atornillan} a tristeza na garganta.

Não reconhecia meu bairro, me sentia desorientada, como se estivesse contemplando uma cidade fora de cobertura, um mundo sem bateria, uma amálgama de tijolos sem alma.

Não encontrava o cheiro a {tortitas} que desprende Madrid na hora das escolas. Por outro lado, eram mais que {palpables} as intermináveis caudas de gentes nas portas das farmácias. Tanta desinfeção, está deixando as ruas sem o beijo que te dá nos lábios um búzio de creme interminável e {fundente}.

Ao fim, sim tenho podido conseguir {levadura} fresca de padaria, algo é algo. Um triunfo. Uma vitória pequena com a que pôr-me a fazer pão e converter minha casa na capa de um conto para meninos, porque ali é onde cheira melhor.

Me {pregunto} se os dias de {Dickens} ainda existem; se a bela literatura voltará a ter um vazio em nossas vidas. ¡Aquela grande fábrica de beleza! a que se afana em {apiolar} os desacertos, as {indignidades} e impurezas... ¿Abrirá as suas portas após o {ERTE}?, ¿seguirá/continuará em pé ou nos oferecerá se talvez, migalhas verbais, desperdícios tóxicos, {papiros} ideológicos?

Tal como vão as coisas, até à beleza se tem metido num beco sem saída. Se percebe/recebe um abandono preocupado dela em tudo quanto nos rodeia; uma {rimbombante} adesão ao desalinho nas palavras, nos gestos. Ninguém que nos proponha acrobacias intelectuais. Ninguém que diga verdades absolutas.

Sem beleza, estamos em absoluto desamparo; parece que o destino seja fugir até os bordas do quadro e como {Chejov}, isolar-nos novamente dos homens. Voltar a casa e {atrincherarnos}, beber-nos a {Ralph} {Waldo} {Emerson} e embebedar-nos com as {Baladas} {Líricas} de {Wordsworth} e {Coleridge}.

Deveríamos voltar a confinar-nos com a poesia do estado de ânimo. {Desfasar} como as aves de passagem. E em Ponta do Este do estômago, padecer a atroz ressaca: essa dificuldade por não encontrar a palavra desejada, a falta de jeito ao escrever verde como a esmeralda.

*Jornalista.