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A restauração da muralha revela seu péssimo estado e urge sua reforma total

A reforma tira à luz seteiras, cordas e agulhas de nove séculos e inclusivamente um impacto de catapulta. Os técnicos destacam as numerosas cavidades e gretas: uma tem 20 metros e parte o Baluarte

 

Há numerosas {oquedades}. -

Impacto de um artefacto medieval. -

LOLA LUCEÑO
16/02/2020

Os operários caminham sobre o abismo como se tal coisa. A um lado, a tela do Baluarte dos Poços. Ao outro, o vazio, um vazio de muitos metros que acaba lá em baixo despenhado. Eles decaem com espátulas, cinzeles, trinchas, baldes, morteiros e planos por um andaime onde a vertigem fica curto. Estão realmente entregues à restauração duma fortificação almóada do século XII que abraça ao terceiro clube monumental de Europa. Analisam restos milenários, esvaziar os segredos das cavidades com câmaras endoscópicas, descobrem impactos de catapultas medievais, encontram antigas seteiras de arqueiros... A primeira fase da restauração da muralha cacerenha é realmente extraordinária.

Este jornal viveu uma manhã de trabalho sobre o esqueleto metálico que sustenta aos profissionais: restauradores, trabalhadores, arqueólogos, técnicos... No mais alto, junto ao ameiado do Baluarte dos Poços, dialogam o chefe de obras da empresa restauradora Cyrepsa, Daniel Peinado, e os arquitetos María Matas e Miguel Matas, redatores do projeto juntamente com Pedro Gurriarán. «A primeira fase compreende desde o Arco do Cristo até à Torre de Hernando Pizarro, uma área especialmente visível e simbólica, no lado Este. É um trabalho apaixonante que por exemplo já nos permitiu obter os dados exatos de como era o Baluarte dos Poços. No entanto, também tem proporcionado uma surpresa desagradável: a muralha está realmente mau. Quando começamos a eliminar o material das restaurações precedentes, apareceram danos muito sérios», lamenta María Matas.

AS FERIDAS / «Há numerosas cavidades e gretas, uma delas percorre inteira a Torre dos Poços. Tem uns 20 metros de comprimento por 1 de largo nalguns pontos, e atravessa todo o muro de 1,50 de grossura, de modo que tem jogo a muralha», descrevem Miguel Matas e Daniel Peinado. As cavidades se distribuem por todo o troço. Nelas se têm introduzido câmaras endoscópicas que demonstram que algumas já alcançam um metro e acumulam penas, excrementos, sementes e ovos a causa da nidificação dos pássaros, que aos poucos vão horadando o taipal. Por isso instalar-se-ão novos ninhos, mas sempre artificiais.

As degustações realizadas demonstram que as cavidades são os pontos mais vulneráveis desta fortificação que levantaram os almoádas faz nove séculos. «Por elas entra a humidade, que em inverno amolecem e entorpecem o material, e em verão o retrai, de maneira que um ano após outro, um século após outro, cai areinha e pequenas pedras que vão descompondo o muro», detalha Miguel Matas.

Faz uma década, um estudo integral da muralha coordenado por este arquiteto disparava as alarmes: detetou mais de mil patologias. Por fim, o 11 de Janeiro de 2018 se conheceu a chegada das primeiras ajudas destinadas a recuperar este elemento medieval sublime: 700.000 euros dados pelos ministérios de Fomento e Cultura através do programa ‘1,5% cultural’, que a Câmara Municipal tem co-financiado com outros 300.000 euros para restaurar os três sectores que integram a primeira fase, do total de quatorze nos que o Plano Diretor da Muralha divide os 1.140 metros do perímetro.

O bastião piorou tanto «que consideramos urgente adiantar o mais rápido possível na reabilitação. Já temos concorrido à nova convocatória do ‘1,5% cultural’. Temos todos os trâmites prontos esperando uma segunda ajuda para acometer o seguinte troço», anuncia José Ramón Bello, vereador de Urbanismo e Património.

Esta nova fase compreenderia a recuperação do troço Sudoeste, que na verdade inclui dois subtroços descontinuos: o primeiro, com a Torre Redonda, um balde, muralha e {barbacana}; e o segundo, com um pedaço de muralha mais visível, barbacana, um balde e a Torre do Aver (muito deteriorada). Vários elementos estão absorvidos pelas casas, mas os resultados prometem. «Queremos abrir algumas torres mais ao público quando acabe a obra», anuncia José Ramón Bello, que ainda não revela os projetos.

Seria a segunda das «seis fases» nas que o atual Governo local pretende dividir a restauração completa, um dinheiro que por enquanto só pode vir de grandes programas como o ‘1,5% cultural’. «A muralha constitui o elemento chave do património cacerenho, o que dá coesão a todo o conjunto. Se arqueológicamente o maior marco foi o achado dos restos romanos do Mayoralgo, arquitetónicamente este é sem dúvida o grande projeto», sublinha o vereador de Património.

Na obra o sabem e trabalham com tanto mimo como diligência. Cada dia, desde o amanhecer até à caída do sol, e aos sábados alternados, vão ‘curando’ a muralha centímetro a centímetro. Uma dúzia de pedreiros, restauradores e arqueólogos ‘cosem’ literalmente as gretas com fibra de vidro, preenchem as cavidades com morteiro e recuperam as belas fitas de cal do Baluarte dos Poços, a jóia mais bela de Cáceres que resplandecia com o sol... «O fazemos com paciência e carinho, sempre tratando de diferenciar nossa restauração do paramento original para não dar lugar a enganos históricos», explica a restauradora Sonia Castro.

FINAL EM SETEMBRO / As chuvas, o vento do outono e a demora em acometer o baluarte pela presença de ninhos de vencejo, têm demorado os trabalhos, que concluirão em setembro. Não obstante, os dois primeiros troços em obras, o tela de São Roque e o baluarte, estarão entre Março e Abril. «Trata-se de uma atuação muito singular por suas características históricas, ao mesmo tempo que complicada pelo lugar, a dificuldade de acesso... O andaimaria foi realizado por uma empresa especializada dada a irregularidade do terreno», detalha Daniel Peinado, chefe de obra e restaurador.

A execução se divide em quatro espaços. O primeiro, o tela de São Roque (não é a muralha, que está oculta entre as casas, mas o {antemuro} ou primeira defesa), começou a restaurar-se em 2019 com a demolição da estrutura de taipal construída em passadas décadas. Sua armadura de ferro estava desfazendo-a devido às dilatações. Poderia ter-se derrubado. «A eliminamos até alcançar o nível do antemuro do século XII, e o estamos reconstruindo com taipal, já que é a imagem consolidada que temos os cacerenhos do troço, mas recuando-o 25 centímetros Temos de agradecer a boa disposição dos moradores», destaca María Matas.

O segundo espaço é muito delicado: o Baluarte dos Poços. Trata-se de a mais peculiar e avançada das torres albarranas. Conserva dois estrelas de oito pontas, um epígrafe de caligrafia cúfico andalusí onde os peritos interpretam ‘Alá é grande’, e uma decoração extremadamente valiosa a base de esgrafitos e fitas de morteiro de cal que cobriram os lados da torre. Num princípio serviam para dissimular os extremos das agulhas, grandes barras de madeira que os almóadas introduziram na edificação para suportar cada capa. Os restauradores estão descobrindo estas madeiras e cordas de 900 anos de antiguidade.

CHEIA DE ESCOMBROS / Mas também ali se tem encontrado a maior fissura, que parte o bastião. «Temos escavado o interior da torre para localizar o início da greta e cosê-la com fibra de vidro», explica o chefe de obras. «No século XVIII, os Jesuítas preencheram a torre com os restos da construção da Afetado Sangue. Vamos a tentar reduzir esses escombros, aproveitando que temos tido que escavá-los por este motivo», indica Miguel Matas. O Plano Diretor da Muralha prevê seu esvaziado, mas após a reforma.

Além disso, os operários têm tirado à luz várias seteiras (vazias nos muros) utilizadas pelos arqueiros que defendiam a cidade. Agora estudam como mantê-las à vista sem gerar humidades. Também têm descoberto um impacto duma catapulta que se está consolidando, bem como as pegadas dos merlões suprimidos pelos Jesuítas na almeia. ¿Os recompõem ou deixam este vazio como parte da história? Justo o debate que têm agora os técnicos.

Sem dúvida tudo é extraordinário. No terceiro troço, da torre de Hernando Pizarro ao Olival da Judiaria, e no quarto, que inclui o Arco do Cristo e a Torre do Rio, também se consolidará e restaurará a estrutura original após eliminar as últimas remodelações que estão desprendendo o revestimento.