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El Periódico Extremadura | Sexta-Feira, 3 de abril de 2020

Antídoto

ROSALÍA Perera
11/03/2020

 

Eles. E o mar golpeando fora. A porta de sua casa um dique. Sobre o precipício, com vertigem, abaixo tudo é «escuro, fugaz, baldio». O mundo fora. Batendo com fúria suas ondas. As que lamiam, suaves, seu futuro, agora arranham, desgastam a dentadas de incerteza, fazem entalhes que lembram. Até aqui chegou a água. Sobreviventes, de mãos dadas. Não podem pensar. Só aguentar. Olhar-se sem perder o foco de visão, afugentando os ruídos, como quem se abre caminho entre a nevoeiro com os olhos do outro como único referente. O último farol em finisterra. Os livros acendem fogueiras para aquecer-se. Suas páginas abrigam as noites incertas. Voam com eles através das janelas. Fechadas. As portas e as quarentenas impostas. O limite de um capítulo lima as grades e um último verso, esplêndido, transbordante de satisfação e honras, se incha como um balão para amortecer os golpes. Dentro. Por fim dentro. Cantarolam, quando se esquecem, ele a pega da cintura e no meio de um passo de dança morde o seu pescoço. Alimentam-se. Sabem. «Un dì, felice, eterea, Mi balenaste innante, E dá quel dì tremante Vissi ignoto amor. Vivo de amor». A tempestade assola. Se anunciam ventos fortes, ciclones, círculos mortais alimentados da esperança do mundo, a aspiram. Um instante sem ar. Em suspenso. Aturdidos aqueles que esqueceram a letra da Sempre libera: O amor é a inspiração… do universo inteiro. Os aeroportos que devem ficar vazios, continuam cheios de abraços. Os meninos se agarram aos seus pais. Apenas se contêm as lágrimas de boas-vindas. E as despedidas, as escuras lamentações, as que se murmuram ao ouvido, opondo-se a perder-se, não ficam a resguardo. Não se mantêm distantes, se agarram. Um pouco mais. Um espera, no vazio da clavícula. O seu dedo detido nesse ponto, memorizando cada poro, cheirando-o como se já fora lembrança. Um perfume que acompanha durante a viagem de volta... Uma mãe cheia de saliva, de catarro, de ânsia de proteção, a cara do seu filho que se afasta, arrancou-lhe a alma. Dois homens levantam suas máscaras para se beijar. Outro dia. Amanhece. Ele a acorda, suave, sussurrando, para que nem a aguda realidade, nem a alarma que soa, constante, fechando colégios, transportes, fugas, lhe faça dano. E lhe vai dizendo, baixinho, cada um dos remédios que com o tempo tinham sido inventados para vencer as trevas, para alumiasse com a graça de estar e ser. Juntos. Amando's em tempos de cólera.

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